REUTERS/Brendan Mcdermid - 26/09/18
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Gilles Lapouge
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Gilles Lapouge: As novas sanções dos Estados Unidos contra o Irã

O país que estava prestes a se reerguer agora está alquebrado. O comércio desmorona e a moeda também. Os preços dos produtos explodiram. O desemprego e a pobreza aumentaram. E o pior ainda está por vir.

O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2018 | 05h00

O presidente iraniano Hassan Rohani anda bastante mal-humorado nas últimas semanas. Rohani, que gosta de de explicar suas intenções aos iranianos, anda silencioso e retraído. Importante dizer que a data de cinco de novembro se aproxima e esse será um dia negro, quando novas, e mais terríveis,  sanções americanas contra o Irãentrarão em vigor, sob o pretexto de que Teerã prossegue secretamente com suas atividades para construir uma bomba atômica apesar do acordo firmado em julho de 2015 após dez anos de negociações entre o Irã e as grandes potências, incluindo os Estados Unidos à época de Obama.

Rohani colhia os frutos desse sucesso diplomático que permitiria ao seu grande país sair do grande aperto que o sufocava. Mas Donald Trump, que sucedeu Barack Obama, desde sua chegada ao governo vinha trabalhando para demolir esse acordo. Ele denunciou o pacto e restabeleceu as severas sanções que já haviam golpeado duramente o Irã.

O país que estava prestes a se reerguer agora está alquebrado. O comércio desmorona e a moeda também: o rial teve seu valor dividido por três ou quatro desde o início do ano. Os preços dos produtos explodiram. O desemprego e a pobreza aumentaram. O Irã está perdendo a cabeça. “O governo Rohani está perdido” disse um diplomata francês. “Há quatro meses vem cometendo uma estupidez atrás da outra”.  

E na segunda-feira Trump vai apertar um pouco mais o garrote fatal lançando um novo pacote de sanções ainda mais perigosas uma vez que elas agora visam o petróleo iraniano cuja venda é a verdadeira “mina de ouro” do país.

Aparentemente Trump é o único,  pois todos os outros países estão ávidos para retomar um comércio lucrativo com o Irã: a Rússia, a China, a Índia e naturalmente a Europa. Mas a indignação não vai longe. A União Europeia protestou por meio de sua representante no campo da diplomacia, a italiana Federica Mogherini. Angela Merkel e Emmanuel Macron gritaram um pouco. A resposta americana foi fulgurante: “Não temos intenção de permitir à Europa ou quem quer que seja que evitem nossas sanções”.

Numa primeira análise diríamos que os americanos são loucos. Com que direito ousam estender para países terceiros, como os europeus, as novas sanções que Trump, e ele apenas, decidiu impor ao Irã, ao passo que todos os outros signatários do acordo nuclear permanecem ligados por esse acordo? Por que a França ou a Alemanha deixariam de negociar com o Irã porque isto desagradaria Trump?

A resposta, infelizmente, é simples: o fato é que as enormes transações, por exemplo, com petróleo, são feitas em dólar, o que automaticamente submete os interessados às regras ditadas pelo país do dólar.

Felizmente os europeus são espertos. E encontraram uma resposta estupenda: um sistema de trocas que permitiria realizar toda uma operação usando outras moedas que não o dólar. Mas o sistema é tão genial e inteligente que se torna incompreensível e provavelmente inviável.

Os grandes grupos europeus não têm ilusões. Não acreditam no artifício elaborado pela União Europeia e já choram a morte do mercado iraniano. A poderosa empresa de petróleo francesa Total já se retirou. Peugeot, que criaria fábricas e venderia muitos carros no país, se apagou. Continuam no campo de batalha o riso triunfal de Trump e o ressentimento dos europeus. E a China? E a Rússia? E a Índia? Eles caminham silenciosamente porque sabem que ao primeiro passo em falso Washington tem meios para puni-los.

Duas conclusões: a primeira é que a agressividade de Trump é de tal constância que nos perguntamos se o seu real objetivo não é mais ambicioso. Philip Gordon, que trabalhou no governo Obama, disse: “com exigências tão radicais é caso de perguntar se o seu real objetivo não é a mudança do regime em Teerã”.

A segunda observação tem a ver com Trump. Normalmente, na França e no mundo inteiro, Trump é considerado um palhaço, um idiota, um sujeito confuso, em resumo, um bufão. Falso. Ele não é idiota, é evidente. Ele mostra em suas ações, por mais desestruturadas que pareçam, uma continuidade e uma direção notáveis.

O que nos leva a uma terceira observação: essa diabólica eficácia de Trump é provida e permitida pela força econômico-financeira dos Estados Unidos. Como certa vez foi dito por um diplomata: “Senhor, gere uma boa economia e eu vos ofertarei uma boa diplomacia”. A inteligência de Trump, que é inegável, é também a do dólar. / Tradução de Terezinha Martino 

 

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