Regis Duvignau / Reuters
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Gilles Lapouge: Farsa presidencial

Para um homem como Macron, que caiu de surpresa na política com o fim de modificar os costumes pestilentos da velha República, agir de maneira dissimulada fere sua imagem de maneira irreperável

O Estado de S.Paulo

24 Julho 2018 | 05h00

Em 1.º de Maio a França, como praticamente o mundo inteiro, comemora o Dia do Trabalho. Desfiles são realizados. O velhos cantam a Internacional emocionados, pensando nos primeiros amores e em Karl Marx.

Mas este ano algo diferente ocorreu. Quase três meses depois do desfile de 1.º de Maio, os jornalistas do Le Monde decidiram examinar as fotos tiradas naquele dia. Em uma delas, eles viram um membro da Companhia Republicana de Segurança (CRS), a tropa de choque da França, de capacete e cassetete, espancando um jovem caído no chão. E veio em seguida a outra surpresa: esse CRS não era qualquer, tratava-se de Alexandre Benalla, próximo de Emmanuel Macron, que se ocupou da segurança dele na campanha presidencial. Macron eleito, Benalla foi nomeado para o Eliseu.

Neste posto, não se previa que em um dia de manifestações ele se disfarçaria de CRS e espancaria um jovem com tal violência que seus colegas tiveram dificuldade para acalmar sua cólera desmedida.

Para um homem como Macron, que caiu de surpresa na política com o fim de modificar os costumes pestilentos da velha República e a promessa de “construir um Estado de cristal”, o fato de um de seus próximos ser surpreendido em uma ação vergonhosa e com um falso uniforme, é chocante.

Mas, no final, e como as pessoas são indulgentes, elas afirmaram que Macron, apesar de todo o cuidado que teve para escolher seus ministros e colaboradores, não podia saber tudo. E no caso do comportamento daquele personagem no Dia do Trabalho, Macron não tinha conhecimento: prova disso é que até o momento em que os jornalistas viram as fotos, ninguém ouvira falar nada sobre o caso. 

Mas tão logo foi encontrado esse estratagema para inocentar o presidente, tudo desmoronou. Após a descoberta do Le Monde, o Palácio do Eliseu teve a honestidade e a coragem política de puni-lo com uma suspensão de 15 dias. E ainda mais atroz: durante esses 15 dias ele não recebeu o salário. 

Uma piada em dobro: em primeiro lugar, uma suspensão de 15 dias é uma pena irrisória para esse homem próximo do Palácio do Eliseu que vai à manifestação com um uniforme que não tem o direito de usar e com o fim de “espancar estudantes”. Mas há um fato ainda mais grave. Essa sanção, que ninguém ouvira falar, foi aplicada há muito tempo. Benalla foi suspenso de 4 a 19 de maio, portanto dois meses atrás, quase imediatamente após o ocorrido. Prova irrefutável de que Macron tinha conhecimento e mentiu, por dissimulação.

Na sua preocupação de não manchar seu brasão imaculado, ele não disse nada, mesmo sabendo tudo. Agiu como uma faxineira que esconde embaixo da cama os pedaços de um vaso Ming que quebrou e jura para sua patroa que não sabe de nada. E se os jornalistas curiosos não tivessem analisado as fotos e reconhecido o homem sob o seu capacete de guerra, ninguém jamais teria sido informado dessa vergonha.

É preciso acrescentar que todas as oposições se lançaram como hienas sobre essas vísceras e o combate político, tão asfixiado na França conformista de Macron, de repente acordou. Um lamentável combate, infelizmente, que se desenrola nos calabouços da República. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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