Antonis Nicolopoulos / Eurokinissi / Reuters
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Gilles Lapouge
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Gilles Lapouge: Fogo de advertência

Incêndios na Grécia são um alerta para nos lembramos do aquecimento global

O Estado de S.Paulo

26 Julho 2018 | 05h00

O verão europeu divulga suas primeiras imagens. Não se parecem nada com as que as agências de viagem publicam para atrair turistas do mundo inteiro: areias brancas, luxuosos chalés, mulheres seminuas e o doce murmúrio das ondas do mar mágico desenhado pelos deuses, o Mediterrâneo.

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Na Grécia, o Apocalipse desabou sobre o paraíso dos veranistas. A 40 quilômetros da capital, Atenas, a cidade de Mati deixou de existir, destruídas por incêndios. Quando as equipes de resgate conseguiram entrar em suas ruas em chamas, encontraram no que foi o pátio de um restaurante 26 corpos calcinados, todos juntos, a apenas de 30 metros da praia salvadora. Eram de vítimas que, ao tentar escapar, caíram numa armadilha de chamas.

Perto de Mati, outra cidade, Rafina, foi igualmente devastada. Desastres semelhantes se abateram sobre outros lugares, como Creta, onde na Antiguidade o Minotauro costumava devorar moças e rapazes.

Nas estradas cortadas pelo fogo, fugitivos desesperados procuravam o norte – e o leste, e o sul, e o oeste. Até ontem, segundo os dados oficiais, havia 80 mortos, mas ninguém duvidava que o balanço final será mais trágico. As crianças parecem ter pago o tributo mais pesado. Corpinhos carbonizados de bebês e até de lactentes foram encontrados em vários lugares.

As investigações já estão em marcha e logo começaremos a ouvir de novo a litania sobre possíveis as causas. Serão as mesmas causas dos incêndios florestais que a cada ano devastam a Provença e o sul da França, a Espanha e Portugal: verões selvagens e bosques inflamáveis e tão malcuidados que os carros dos bombeiros não conseguem nem mesmo abrir caminho por eles.

Aos infortúnios da natureza, soma-se a infâmia da especulação imobiliária. Todo ano, nesses países onde a terra vale ouro por causa do turismo, especialistas em provocar incêndios, vergonhosamente contratados por agentes imobiliários, percorrem as florestas. Eles jogam uma bituca de cigarro ainda acesa aqui, um fósforo sem apagar ali, um pedaço de papel em chamas adiante e a desgraça está feita: um departamento inteiro vira cinza.

Esses flagelos antigos são quase um ritual nas regiões meridionais, mas hoje ficaram cada vez mais frequentes – e cada vez mais perigosos. De dez anos para cá, sua natureza mudou. Ocorre que um novo ator, mais devastador mais perverso que os especuladores imobiliários, entrou para o espetáculo com uma impetuosidade e uma potência incomparáveis: o aquecimento global, cuja existência é negada por Donald Trump porque o combate ao CO2 poderia incomodar grandes industriais americanos.

Entretanto, a mensagem transmitida há uma década pelos verões assassinos das belas paisagens moribundas do continente não tem ambiguidade: os incêndios que torram Grécia, Argélia, Portugal, França e Itália são uma advertência dos deuses mais cruéis, aqueles que moram no Sol e nos vulcões, de que preparam novos espetáculos. A desgraça está à nossa porta. Talvez possamos retardar por alguns anos sua chegada, mas uma coisa é certa: se a comunidade humana nada fizer, as imagens de pinheiros e eucaliptos se contorcendo em chamas poderão se transformar naquelas do fim de uma civilização. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ


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