Ludovic Marin//Reuters
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Gilles Lapouge: Macron diante da aliança anti-democrática na Europa

A Europa, de norte a sul e de leste a oeste, formiga de inimigos de Bruxelas – xenófobos, soberanistas, neonazistas, populistas de ultradireita e de ultraesquerda

O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2018 | 05h00

Que ninguém diga que Emmanuel Macron não tem sangue-frio. Na terça-feira, enquanto Paris fervia com a demissão do ministro da Ecologia, o carismático Nicolas Hulot, Macron, na Dinamarca, jogava charme para a princesa Maria. O objetivo da visita: convencer uma Dinamarca cada vez mais seduzida pelo euroceticismo a reencontrar sua alma europeia e se alinhar aos projetos europeus de Macron.

Macron tem pressa. Seu sonho é tomar de assalto a União Europeia (UE) e segurar o cetro de líder da Europa, que está prestes a cair das mãos trêmulas da alemã Angela Merkel. Não é uma empreitada fácil. A Europa, de norte a sul e de leste a oeste, formiga de inimigos de Bruxelas – xenófobos, soberanistas, neonazistas, populistas de ultradireita e de ultraesquerda.

Para os populistas, Macron é o inimigo número 1. Na terça-feira, em Milão, cidade que namora o fascismo, o homem forte do governo italiano, Matteo Salvini (aquele que fechou os portos do país aos navios com imigrantes africanos), recebeu o mais antigo e mais agressivo dos europeus que detestam a Europa: o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban.

Orban entende que Macron – humanista, democrata e apaixonadamente europeu – está à frente dos que apoiam a imigração, o que é mentira. Macron tem uma política muito rigorosa nessa matéria. Se ele não manda devolver ao mar árabes ou asiáticos perdidos nas costas europeias, também está longe de abrir a França ao fluxo de estrangeiros. Mas na visão de Orban, que trancou seu país à imigração, o simples fato de socorrer migrantes já é uma fraqueza vergonhosa.

Orban apresentou o intransigente Salvini, ministro italiano do Interior, como “um herói.” E afirmou: “Nós, húngaros, já demonstramos que a imigração por terra pode ser contida. Agora, a Itália de Salvini prova que também pelo mar é possível freá-la”.

Uma “frente anti-Macron”, ou seja, antieuropeia e antidemocrática, está tomando forma na Europa.

Não faltam candidatos a engrossá-la – Áustria, Polônia, Romênia, amanhã Suécia ou Dinamarca, etc. Essa frente estende a mão a partidos que ainda não chegaram ao poder, mas já são influentes – um exemplo é a Reunião Nacional (antiga Frente Nacional), de Marine Le Pen. A meta desse conglomerado populista é clara: as eleições europeias de maio de 2019, que permitirão aos antieuropeus e à extrema direita mostrar seu enorme poder.

No caminho dessa força crescente e raivosa, não há muita coisa além de Emmanuel Macron. Acontece que a influência internacional do presidente francês desgastou-se seriamente com os erros que vem cometendo. Há também a Alemanha, claro, mas a Alemanha também está na mira de forças obscuras.

Os inquietantes incidentes de terça-feira na cidade de Chemnitz são um alerta de que o perigo se aproxima, com o ódio aos migrantes abalando a tão tranquila vida alemã. Merkel, um símbolo do bom senso alemão, caiu do pedestal. A razão? Mais uma vez, os migrantes. Os alemães nunca a perdoaram por ter aberto as fronteiras de seu país em 2015 a 1 milhão de refugiados sírios.

A partir daí, todos os grupos populistas, com frequência apoiados por organizações neonazistas, passaram a espumar cada vez que um crime é cometido por um estrangeiro – sírio, afegão, iraquiano... Foi o que ocorreu em Chemnitz. Acreditava-se que uma manifestação em protesto pela morte de um jovem alemão de origem cubana reuniria apenas algumas centenas de marginais, mas acabou arrebanhando 6 mil manifestantes convictos, violentos, que berravam slogans extremistas e faziam saudações nazistas.

O jovem partido Alternativa para a Alemanha (AfD), celeiro de revisionistas, alimenta-se dessas desordens. Ele já dispõe de 20% dos votos, e não para de crescer. A cada vez que incidentes do tipo enlutam o país, Merkel apela à sabedoria dos alemães, à tolerância, ao Estado de Direito. Mas sua voz, que foi forte durante tantos anos, mal perturba o silêncio. Essa é a solidão que espera Macron. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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