Middle East Monitor/Handout via REUTERS
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O sumiço sinistro do jornalista Jamal Khashoggi

É claro que a Arábia Saudita, como tantos regimes tirânicos, mas o crime contrasta com a imagem de reformista vendida pelo príncipe herdeiro, Mohamed bin Salman

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2018 | 05h00

Jamal Khashoggi desapareceu há duas semanas. O jornalista, que trabalhava nos EUA, entrou no dia 2 no Consulado da Arábia Saudita em Istambul e não saiu mais. Ou melhor, saiu, mas em pedaços, cortados com uma serra e jogados sabe-se lá onde. Essa versão foi tida como verdadeira pelos turcos e por Donald Trump, grande amigo da Arábia Saudita. Entretanto, o mistério continua

É claro que a Arábia Saudita, como tantos regimes tirânicos, é capaz de tudo. O russo Vladimir Putin, o chinês Xi Jinping, o turco Recep Erdogan e o norte-coreano Kim Jong-un também matam, mas sem deixar pistas. O crime de Istambul teria sido perpetrado por 15 especialistas, vários militares de alta patente. O mandante seria Mohamed bin Salman, filho preferido do rei Salman.

Em lugar de detalhar a ignomínia do caso, vamos falar da figura do homem forte de Riad, principal suspeito. Desde que foi apontado como herdeiro do trono, MBS se apresenta como um dirigente ousado e reformista, decidido a tirar o reino da Idade Média em que vive. Pouco depois de sua designação, MBS mandou prender, no suntuoso Hotel Ritz-Carlton de Riad, uma penca de primos príncipes, com as respectivas esposas, para lhes mostrar quem era o novo chefe. 

E, para honrar a recém-adquirida imagem de reformista, MBS pôs fim a um dos arraigados tabus da monarquia beduína: anunciou que, como as mulheres são iguais aos homens (ou quase), estava concedendo a elas o direito de dirigir, de vestir-se com mais liberdade, estudar e até ostentar um pouco de inteligência. As feministas se rejubilaram: Riad dava direitos inédito naquela fortaleza de machismo que é o país dos beduínos. MBS foi além e mandou reabrir cinemas, teatros e salas de concerto. 

Nas primeiras semanas, os estrangeiros se entusiasmaram. Surgia enfim um príncipe disposto a conduzir a monarquia da areia até a era moderna. Mas a decepção não demorou. Em política externa, MBS é tão obtuso quanto seus predecessores. Foi ele quem começou a guerra do Iêmen. Em relação ao Irã, é tão inflexível quanto os que o antecederam. Também joga na prisão, democraticamente, modernistas, retrógrados, religiosos obscurantistas, progressistas e as mulheres “livres demais”. Nada de novo, portanto, sob o implacável sol do deserto. 

Esse é o homem acusado de articular o assassinato. Imprudentemente, havia na coorte dos 15 assassinos membros da guarda pessoal de MBS. Poderia semelhante amadorismo provocar uma revolução palaciana em Riad, com a substituição de MBS por um primo? 

Impossível prever o que sairá dos conciliábulos reunidos nos subterrâneos dos palácios sauditas. Nem mesmo um eunuco que circulasse livremente pelos haréns de Riad poderia adiantar alguma coisa. Especialistas não têm dúvidas de que MBS está em perigo.

O que não é tão certo é que ele venha a ser substituído por um primo. Só mesmo Shakespeare para destrinchar tal situação – e mesmo ele hesitaria. O Bardo entendia bem das atrocidades de Ricardo III ou de Lady Macbeth, mas neste balé de sombras e baixarias ele perderia seu latim. 

Outro que está no escuro é Trump. Dez dias atrás, ele vestiu seu uniforme de justiceiro e ameaçou os autores do assassinato. Depois, refletiu melhor. Há alguns dias, o grande senhor da Casa Branca espreme os miolos em busca de uma saída segura, pois como poderiam os EUA abrir mão de bilhões de dólares que vendem em armas aos aliados sauditas? 

Uma saída seria atribuir o crime a outros assassinos que não o “bando dos 15”. É claro que isso não colaria. Mas Xi perdeu o emprego por eliminar desafetos? E Putin? E Kim? Além disso, sabe-se em todas as delegacias do mundo que um interrogatório mais duro faz mal à saúde do interrogado. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É colunista

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