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Gilles Lapouge: Os despojos exumados do ditador Francisco Franco

Os rancores deveriam estar esquecidos, mas qualquer coisa pode reavivá-los

O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2018 | 05h00

Quarenta e três anos após a morte do ditador Francisco Franco, Madri exumará seus restos mortais para virar essa página negra da história da  Espanha e do mundo? É o desejo do chefe de governo, o socialista Pedro Sánchez, que em 24 de agosto assinou decreto, aprovado pelo Parlamento, autorizando a exumação dos despojos do ditador.

Os restos mortais de Franco estão no mausoléu do Vale dos Caídos, a 60 quilômetros de Madri. Quando ordenou sua construção, em abril de 1940, Franco, exaltado pela recente vitória dos fascistas contra os republicanos, teve um acesso de lirismo histórico, entendendo que ele significaria que sua vitória era irrevogável e constituía uma fissura na história da humanidade, que o mausoléu transformaria o Vale dos Caídos por toda a eternidade. 

No texto do decreto, ele fez menção a uma civilização mais antiga, mais durável e mais fascinante: o Egito: “Este mausoléu será uma Grande Pirâmide”. Um belo projeto, mas um pouco ambicioso. A pirâmide de Quéops foi construída há 4.500 anos e sua beleza ainda hoje nos fascina. O mausoléu de Franco não tem 50 anos e já está sendo trasladado. 

Para Sánchez, a exumação deve cauterizar a cicatriz purulenta aberta pela guerra e jamais curada. Ela continua a sangrar quase um século depois da batalha de Terruel ou a carnificina de Guernica. Mas a esperança pode se tornar uma decepção. 

Desde o decreto, dois campos se formaram e reproduzem fielmente, sob uma nova roupagem, os dois partidos que se massacraram entre 1936 e 1939: de um lado, aprovando o desejo do premiê, os socialistas, seus aliados do Podemos, os catalães e os bascos. Do outro, aqueles que não desejam a mudança, que representam a direita: o Partido Popular, que há poucos meses ainda estava no poder com Mariano Rajoy, e os Ciudadanos. Mas há outra cantilena: os Beneditinos, que possuem um enorme convento no vale são ferozmente contra a saída dos despojos de Franco (a Igreja espanhola, tão ligada a Franco, abrandou sua posição e não se oporá à decisão de Sánchez).

Quando ouvimos os argumentos de uns e de outros, o que espanta é a sua pobreza. São as mesmas certezas expressas há meio século. E fica claro que grande parte da população espanhola continua dividida entre franquistas e republicanos. Desde o anúncio da transferência, os nostálgicos de Franco se agitaram. Um número excepcional de pessoas se aglomerou na frente do mausoléu. 

Entre os argumentos dos defensores da transferência, destacamos o do historiador Julien Casanova: “Não há monumentos de Hitler na Alemanha e na Áustria, nem de Mussolini na Itália. O mausoléu onde estão os restos mortais daqueles que morreram no conflito e também os de Franco e seu cúmplice, José Antonio de Rivera, o fundador da falange fascista, é um panegírico do regime franquista e não convida a uma reconciliação. Portanto, existem razões históricas para agir e transferir os restos mortais.”

Por essas afirmações, vemos que a Espanha não está pronta para proclamar “a paz dos bravos”. Depois de tantos anos, as mentiras, os rancores e os delírios continuam virulentos. Poderíamos pensar que estavam esquecidos, mas qualquer coisa pode reavivá-los. E tocar na figura de Franco é um crime de lesa-majestade. 

Os dois campos irreconciliáveis trocam os mesmos insultos, mesmo se lançados à sombra da cruz de 130 metros que domina do alto o mausoléu, ou sobre os corpos torturados dos dois lados, recolhidos nos mesmos campos de batalha e hoje reconciliados no silêncio da eternidade. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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