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Gilles Lapouge: Parcerias com a Rússia

De encontro entre Putin e Merkel saiu o projeto do gasoduto Nord Stream 2

O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2018 | 05h00

Angela Merkel e Vladimir Putin se reuniram pela segunda vez em seis meses. Merkel tenta escapar da “Sibéria diplomática” que a Europa atravessa desde a anexação da Crimeia pelos russos. Os dois líderes se estimam e têm pontos em comum. Junte-se a isso os fortes laços econômicos entre a Rússia, empenhada em se reconstruir, e a Alemanha, primeira potência econômica da Europa. 

Um resultado dessa parceria é o projeto do gasoduto Nord Stream 2, que deve dobrar o fornecimento de gás russo à Alemanha – sujeitando a esse gás a quase totalidade dos países europeus (para fúria de Donald Trump). Assim, o Castelo de Meseberg, em Brandenburgo, estava pronto para abrir o início de um novo capítulo na amizade entre os dois Estados. 

Mas entrou um pouco de areia nas engrenagens diplomáticas. Essa areia se chama Karin Kneissl, ministra austríaca de Relações Exteriores que, tendo se casado naquele dia, convidou Putin para a festa. Putin aceitou. Despachou para a Áustria um grupo de cantores cossacos e dançou a valsa com a noiva. E deixou Merkel esperando meia hora. Essa paixonite da Rússia pelo governo austríaco causa algum escândalo, se nos lembrarmos de que esse governo, liderado pelo chanceler Sebastian Kurz, está cheio de ministros de extrema direita, que têm certa nostalgia do nazismo. 

O episódio foi criticado por alemães e austríacos, mas a cúpula do poder em Viena não estava nem aí. Merkel também não quis dramatizar o ocorrido. Como os interesses econômicos em jogo são enormes, a diplomacia alemã manteve o sangue-frio. 

Assim, o encontro entre ela e Putin transcorreu em paz. Houve alguns avanços em relação ao Oriente Médio, o acordo sobre o gasoduto Nord Stream 2 e, principalmente, a defesa do Irã e de seu programa nuclear pacífico, em oposição frontal à raiva de Donald Trump sobre o tema. 

Pelo menos o incidente da valsa de Putin com a ministra, muito próxima dos extremistas de direita, trouxe à lembrança, na encantadora paisagem das florestas austríacas, outras imagens bem menos charmosas. 

Alemanha se livrou rapidamente dos venenos do nazismo (mesmo que eles retornem hoje), enquanto os austríacos jamais renegaram o tempo (1939-1945) em que compartilhavam das loucuras de Hitler. 

Uma das razões dessa resiliência austríaca é o que chamamos de “confrarias”. São corporações de estudantes que têm o mesmo fascínio pelo extremismo e a violência, aí compreendidos os duelos, frequentemente de espada, entre membros dessas confrarias. Por trás dessas imagens agressivas e folclóricas há um trabalho político profundo, pouco conhecido, que comunga de valores caros ao nazismo. São confrarias exclusivamente de homens, que propõem “uma comunidade cultural alemã que ultrapasse as fronteiras atuais”.

O poder no país está atualmente com o Partido Popular Austríaco, de extrema direita do chanceler Sebastian Kurz. O governo de Kurz conta com alguns ministros mais inquietantes, do extremista Partido da Liberdade na Áustria (FDO). Ele se apossou do celeiro constituído pelos membros das confrarias. Hoje, essas ideologias são mais facilmente assumidas. Doutrinas de 1936 se adaptaram ao mundo de 2018. O vice-chanceler Strache, do FPO, por exemplo, ataca muçulmanos e africanos que pedem asilo. “A integração desses indivíduos é uma violação dos direitos do homem, pois cada povo tem um caráter, um espaço vital e uma identidade próprios.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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