EFE/EPA/YOUSSEF BADAWI
EFE/EPA/YOUSSEF BADAWI

Gilles Lapouge: Paris e Washington

Ocidente caiu na categoria de “tigres de papel”, que rugem e voltam para seus abrigos

O Estado de S.Paulo

12 Abril 2018 | 05h00

Aviões sírios levaram ao ridículo as nações civilizadas ao bombardearem civis com gases mortais. Uma carnificina. Uma violação das “leis da guerra”. O presidente Barack Obama previu esse “cenário”. Esse homem notável, que tinha horror à violência e às guerras, abandonara seu silêncio. Ele havia alertado a Síria e seus aliados: o envio de gás mortal é uma “linha vermelha” que não deve ser cruzada. Se a Síria ignorar a advertência, o Ocidente atacará. A França, de François Hollande, não ficou de fora: ela se uniria aos ataques punitivos dos EUA.

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Mas o que aconteceu? O escrupuloso Obama, no último momento e depois de algumas consultas com os russos, nos decepcionou. Ele renegou suas promessas e ameaças. Não deu a ordem de guerra. De repente, a França retirou seus Rafales para Saint Dizier, porque não queria se lançar em tal aventura. 

Além disso, uma ação aérea tão pesada não poderia ser conduzida por uma França solitária, sem a assistência técnica dos americanos. Resultado: por momentos, o Ocidente caiu pesadamente na categoria de “tigres de papel”, ou seja, aqueles que mostram seus músculos, rugem e voltam para seus abrigos antes do primeiro tiro. Obama, tão calmo, inteligente, escrupuloso, cometeu um erro naquele dia. Esse erro tornou-se, desde então, um “ponto cego” para todas as estratégias do Ocidente. 

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Alguns chegam a dizer que, se a guerra síria continua matando, é por conta desse dia fatal de 2013, quando as bombas foram carregadas nos aviões do Ocidente, mas nunca despejadas. Isso é exagerado, mas não se pode negar que o cenário hoje reproduz identicamente o anterior. 

Houve quem concluísse que a indecisão de Obama prolongou por cinco anos os massacres. Conclusão injusta, sendo evidente, uma vez que a peça que foi subitamente interrompida, em 2013, está de novo presente e recomeça no ponto em que foi interrompida. Cinco anos depois. Essa lembrança, sem dúvida, explica que a demora de EUA e França para agir trouxe como resposta, há poucos dias, o massacre com gases letais de 70 pessoas, incluindo crianças, em um subúrbio de Damasco. 

No entanto, os atuais líderes ocidentais parecem mais resolutos que aqueles de 2013: em vez do tipo gentil e apagado de Hollande, o “ousado” Emmanuel Macron, que tudo sabe, cujo braço jamais treme. Em vez de Obama e suas delicadezas, Trump e sua brutalidade e ignorância. No entanto, até mesmo esses dois homens decididos escolhem seus tempos.

Entenda-se: até mesmo esse maluco do Trump mede os perigos de um ataque. Macron também afirma que um ataque seria escrupulosamente planejado para evitar que incendeie toda a região. “Em qualquer caso”, diz o presidente francês, “nossas decisões não pretendem atingir os aliados de Assad, nem atacar ninguém, mas destruir a capacidade química do regime.”

Assim, tomaremos o cuidado de delimitar o incêndio e, especialmente, de não favorecer, diante da dupla França-EUA, uma coalizão de simpatizantes de Assad, em primeiro lugar a Rússia, que durante anos domina aquela parte do Oriente Médio, onde ninguém pode tomar uma decisão pesada (por exemplo, o uso de um gás letal) sem um acordo e até mesmo sem a assistência técnica de Moscou. 

Certamente, nem Trump nem Macron pretendem esquecer seus princípios, mas tudo o que fizerem obedecerá a uma regra sagrada. Vamos atear fogo, mas esse fogo não terá o direito de exceder os limites previamente proclamados. O alvo é claro: “Assad, mas somente Assad”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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