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Gilles Lapouge: Ponte russa na Crimeia

Muitas vezes, um incidente aparentemente local pode esconder outro mais perigoso

O Estado de S.Paulo

28 Novembro 2018 | 05h00

Aqui está um nome que você deve lembrar se quiser acompanhar as últimas notícias da Europa Oriental: a palavra Kerch. É um estreito que separa a Crimeia da Rússia, ligando o Mar de Azov, entre a Rússia e a Ucrânia, ao Mar Negro. Como a Ucrânia jamais aceitou a anexação da Crimeia pela Rússia, é inevitável que essa área ao redor do Estreito de Kerch tenha se tornado um lugar extremamente quente, especialmente desde que os russos construíram e inauguraram, em maio, uma ponte que liga o continente russo à Península da Crimeia, que foi anexada por Moscou em 2014.

Essa ponte de Kerch, de 19 quilômetros de extensão, é de fato uma espécie de fronteira entre a Rússia e a Ucrânia. Não é de se admirar que ela tenha se tornado uma área febril, na qual o fogo, mal e penosamente dominado após as duas guerras de Donbass (província do leste da Ucrânia), no verão de 2014 e no inverno de 2015, mostra uma trama secreta e é provável que se reacenda.

A briga é entre vizinhos. A Rússia, que reclama a sua influência ancestral sobre a Crimeia, e a Ucrânia, que considera que a península lhe pertence. A anexação foi seguida por uma guerra em Donbass, onde as minorias de língua russa tentam arrancar mais um pedaço de território da Ucrânia (ao custo de muito sangue: 10 mil mortos).

De fato, houve alguns incidentes menores nos últimos meses, entre as Marinhas ucraniana e russa. E, no domingo, outro incidente um pouco mais sério: um rebocador e dois navios de patrulha da Marinha ucraniana tinham deixado o Porto de Odessa, no Mar Negro, em direção a Mariupol, no Mar Azov. Eles foram brutalmente detidos pela Guarda Costeira russa no Estreito de Kerch e levados para a Crimeia. 

Imediatamente, os insultos voaram entre Moscou e Kiev. Os ucranianos lembraram que eles haviam alertado claramente as autoridades russas sobre os movimentos da pequena frota de três barcos. Os russos responderam, acusando os ucranianos de violarem suas águas territoriais ao se aproximarem demais da península. 

Os ucranianos rejeitam todas as acusações: suas críticas, dizem eles, são irrelevantes, uma vez que Kiev nunca reconheceu a Crimeia como território russo desde o golpe de Estado patrocinado por Moscou, em 2014.

No entanto, por trás do conflito, há outro muito mais pesado: o medo doentio sentido por Moscou dos perigos (imaginários) vindos do Ocidente. Os russos sempre consideraram que a Ucrânia era um amortecedor entre os ocidentais e a Rússia. 

O então presidente americano George H. Bush havia prometido oralmente ao soviético Mikhail Gorbachev, na Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa, em 20 de novembro de 1990, em Paris, não expandir a Otan aos países do Pacto de Varsóvia.

No entanto, desde a revolução pró-ocidental da Ucrânia, que arrancou a Kiev da tutela russa, os ucranianos, pelo contrário, desejam ardentemente que seu país se una à Otan – e até mesmo à União Europeia.

Assim, como a história nos ensinou muitas vezes, um incidente aparentemente local e até insignificante pode esconder outro muito mais perigoso envolvendo outros atores. 

Talvez um dia o incidente menor entre a flotilha ucraniana e a Guarda Costeira russa tenha de ser lido sob essa luz mais perturbadora. Como evitar esse perigo real? Os americanos não parecem dispostos a desistir da ideia de estender a Otan em direção ao Oriente, até a periferia da Rússia. 

E a Rússia, por sua vez, não tem o desejo de lamentar sua antiga teoria, a da “esfera de influência”, da qual não só fazem parte a Crimeia e a Ucrânia, mas também países do Cáucaso e outras pequenas nações do norte da Europa. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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