Foto Jonathan NACKSTRAND / AFP
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Racismo e xenofobia ameaçam eleição na Suécia

Conjuntura ficou favorável aos agitadores suecos, animados por outros países europeus

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2018 | 05h00

Neste domingo, 9, ocorrem eleições na Suécia. Há dez anos uma eleição nesse país passava despercebida. Podíamos dormir tranquilos. Os suecos são pessoas sérias, tranquilas e estavam imunes contra o veneno deste século: o ódio aos estrangeiros, a xenofobia. Quanto ao perigo fascista, era inexistente.

Na Suécia os direitos humanos e o respeito à democracia formam um coquetel que cada bebê sueco experimenta desde seu primeiro dia ao ser amamentado pela mãe. O mecanismo político sueco é tão bem regulado que dois campos apenas dividem o poder: à esquerda os social-democratas, os Verdes, a esquerda radical. À direita, os conservadores, os liberais, os de centro, os democrata-cristãos. De tempos em tempos a combinação muda. Mas sempre conservando mais ou menos os mesmos grandes princípios.

Este ano, nada disso se verifica: toda a Europa está voltada para esse pequeno país protestante, próspero e monótono. Ocorre que um novo conviva se apresentou à mesa, um “agitador”, o partido dos Democratas Suecos, que tem um apetite infernal. Ao ser fundado, em 1988, o partido anunciou as cores da sua bandeira, vermelha e negra. Seu primeiro dirigente fez carreira na SS de Hitler.

Seus sucessores são menos ruidosos. Têm mais delicadeza: Jimmie Akesson, que preside o partido, não aparenta ser nazista. Tem uma cabeça redonda e os olhos ainda mais redondos. Um bom pai de família. Se insultado, responde com brandura. É o melhor orador do Parlamento.

E tudo isso compensa: os Democratas Suecos dobram sua pontuação a cada eleição nacional; há oito anos sua porcentagem de votos era de 6%. Em 2012, o partido contabilizou 13% e este ano obteve 20%, o que lhe garante uma influência decisiva sobre a política sueca e mesmo europeia.

Como explicar isso? A monotonia acaba cansando e nada é mais fatigante do que a virtude perpétua. O tédio com os longos invernos e essa beleza infinita da natureza, “as pessoas estão fartas disso”, sonham com sangue, disputas, infelicidade, felicidade insana. Querem um pouco de ruído, tempestades.

A conjuntura ficou favorável para os agitadores suecos. O fato é que 18,5% dos suecos nasceram no estrangeiro. A fisionomia do país mudou muito: há muitos policiais nas ruas. Nas periferias, carros são queimados.

A economia é próspera, a taxa de desemprego é de 6,2% e o nível de vida bastante elevado. Sim, mas é para engordar todos esses africanos e sírios! Claro, essa intensificação brutal das paixões xenófobas e mesmo racistas, foi galvanizada pelo exemplo de outros países europeus. O racismo e a xenofobia se comunicam de país para país. Em 50 anos, a União Europeia não conseguiu criar no continente um sistema bancário comum, mesmos impostos, um Exército transnacional, nem uma Justiça federal.

Mas a mesma velha Europa conseguiu adquirir em dez anos uma energia que surpreende, uma espécie de “Internacional” do ódio, apoiada pela ultradireita e muitas vezes por sobreviventes da 2.ª Guerra com suas fantasias sombrias. Essa confederação informal conseguiu também forjar um instrumento comunitário inédito, sem leis, que parece ter atingido sua plenitude. E apenas em dez anos. Tendo no topo tipos como o húngaro Viktor Orban, o italiano Matteo Salvini, o austríaco Sebastian Kurz, ninguém duvida que a galáxia informal dos populistas tem belos dias pela frente. E se a Suécia, a bela Suécia, também aderir... / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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