Girar a economia e as centrífugas na direção certa

Observadores do Irã nos Estados Unidos consideravam Hassan Rohani o melhor candidato presidencial para aliviar as tensões com o Ocidente e, quem sabe, abrandar a escalada do impasse nuclear. Embora haja motivos para dúvidas - a política externa e a questão nuclear são controladas pelo líder supremo Ali Khamenei e não pelo presidente, por exemplo, além de que Rohani sempre poderia frustrar as expectativas externas - há razões para otimismo com o Irã pela primeira vez em anos.

CENÁRIO: Max Fisher / W. Post, É JORNALISTA, CENÁRIO: Max Fisher / W. Post, É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2013 | 02h07

O histórico de Rohani nas questões nucleares mostra que, apesar de ele ser um defensor do enriquecimento de urânio para fins pacíficos, como muitos iranianos, também é predisposto a compromissos, diplomacia e cooperação, sinais promissores para uma desescalada das tensões.

Ele conduziu as negociações nucleares do Irã de 2003 a 2005, ganhando uma reputação por diplomacia que lhe valeu o apelido de "xeque diplomático". Durante esse mandato, o Irã aceitou paralisar seu enriquecimento nuclear e ampliar a cooperação com inspetores nucleares internacionais. Ele serviu no governo do presidente reformista Mohammad Khatami e autorizou um livro de memórias de 1.200 páginas de seu período no cargo, intitulado Segurança Nacional e Diplomacia Nuclear, que defende um programa de enriquecimento nuclear para fins pacíficos, mas também enfatiza a importância de um entendimento diplomático com o Ocidente. Foi nesse livro que se revelou que Teerã recebeu, mas rejeitou, uma oferta de cooperação dos EUA em 2004.

Poucos esperam uma virada súbita do programa nuclear do Irã ou de sua posição ante o Ocidente. Mas, ao menos sobre essa última, o establishment político do país parece estar envolvido num debate sobre se já não pode ser hora de engajar os Estados Unidos em discussões amplas.

O atual chanceler enviou recentemente a Khamenei uma carta manuscrita pedindo pressa exatamente nisso, e circularam notícias desde outubro sugerindo que Teerã e Washington podem estar estudando cautelosamente um diálogo direto para resolver seus muitos contenciosos. Rohani, como presidente, poderá ser outra voz de peso defendendo internamente o diálogo e a cooperação.

Jason Rezaian escreveu num recente perfil de Rohani que este ganhou particular apoio "entre iranianos de mentalidade liberal, especialmente os jovens" por sua percebida conexão com "o movimento de reforma do fim dos anos 1990 e início dos 2000, antes do extremismo que tomou conta da eleição de Mahmoud Ahmadinejad em 2005". Rohani enfatizava os direitos de mulheres e minorias e a liberdade de expressão.

Economia. O apoio a Rohani na eleição parece ter vindo, sobretudo, por sua posição nas questões econômicas e sociais domésticas que se sobrepuseram à questão da política nuclear na campanha. Mas as duas questões estão interligadas; o isolamento internacional do Irã e a escaldada da inflação que o país experimenta em grande parte em razão das sanções impostas pelo Ocidente com relação ao programa nuclear. O próprio Rohani disse, durante um recente debate presidencial, em frase reproduzida pelo jornal britânico Guardian: "Nossas centrífugas só serão boas para girar se a economia popular também estiver girando na direção certa".

Isso não significa que Rohani está decidido a desmantelar as centrífugas ou passar por cima de Khamenei, o líder supremo, a autoridade máxima em questões de política externa e militares - e considerado um linha-dura em ambas. Mas as visões de Rohani não são secretas e vale notar que o órgão judicial encarregado de vetar candidatos presidenciais, visto como íntimo aliado do líder supremo, permitiu que Rohani concorresse após barrar todos os candidatos reformistas - entre eles Akbar Hashemi Rafsanjani, tido como "mentor" de Rohani.

Segundo o presidente do National Iranian American Council, Trita Parsi, há três razões pelas quais Rohani pode ser capaz de aproximar Khamenei, e com isso o Irã, de um acordo. Primeiro, ele muito provavelmente preencherá ministérios e instituições chaves com pragmáticos e tecnocratas, substituindo os conservadores que os ocuparam por oito anos. Segundo, tem um histórico de encontrar "interesses comuns" entre o Ocidente e o Irã, por acordos que podem ser palatáveis tanto para os Estados Unidos como para Khamenei. E terceiro, parece ver que os riscos de confronto são maiores que os riscos de um acordo, um cálculo que Khamenei pode não compartilhar, mas que pode ser um contrapeso interno para autoridades mais conservadoras.

O presidente eleito pode oferecer ao líder supremo uma oportunidade de permitir uma atitude mais conciliadora com o Ocidente sem comprometer suas credenciais de linha-dura. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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