Giscard d?Estaing, o homem que pode liderar a Europa

Em 2002, a inquietação tomou conta de um homem. Refiro-me a Valéry Giscard d?Estaing, e não a algum jovem inexperiente. Esse ser de estirpe jurássica foi ministro das Finanças do general de Gaulle em tempos pré-históricos. De 1974 a 1981, ocupou a presidência da República. Como é incansável esse homem. Aos 75 anos, ele não pára, vai daqui para ali, e brilha. Se decidir disputar a próxima eleição presidencial, suas chances serão muito boas o que seria catastrófico para o atual líder da ?direita?, Jacques Chirac, que conta com a reeleição para o Eliseu. Contudo, Chirac, que detesta Giscard, o qual, por sua vez, também detesta Chirac, conseguiu pô-lo ?de molho? ao nomeá-lo presidente da Comissão encarregada dos preparativos para a ?reforma das instituições européias?. Foi um belo golpe de Chirac. A função dada a Giscard é prestigiosa. O ex-presidente, que sempre se achou destinado a exercer um papel de destaque em nível supranacional (já que não lhe foi possível exercê-lo em nível mundial), não poderia recusar tal honraria. Além disso, essa nova posição lhe permitirá dar lições a todos os países seu esporte favorito e sua diversão predileta. Com isso, Chirac conseguiu se livrar desse personagem incômodo, que o fiscalizava e o censurava, e que distribuía conselhos do alto de sua arrogância aristocrática e culta. Conseqüentemente, entusiasmado com a idéia de voltar à linha de frente dos eventos mais importantes da Europa, Giscard acalmou-se. Calou-se. Deixou de comentar os ?pontos positivos? e ?negativos? dos acontecimentos. Fim da calmaria A calmaria durava já oito dias, quando ele então voltou a se manifestar e, desta vez, na primeira página do estandarte da burguesia, o Le Figaro. Em seu diagnóstico sobre o mundo, nada encontramos de original, nem mesmo a possibilidade de uma recuperação significativa ou de uma grande recessão. Ele diz, entre outras coisas, que a França não está bem. Acredita-se que seja um dos países mais importantes da Europa, mas isso não passa de ilusão. A França nunca deixou de regredir. Seu aspecto aparentemente saudável nada significa. A Alemanha, que todos julgam estar em dificuldade, encontra-se, na verdade, bem adiante da França. Tais reprimendas dirigem-se, é claro, primeiramente à ?esquerda?, o que é natural da parte de um ?liberal? como Valéry Giscard d?Estaing. Cultura estatizante Contudo, ele não poupa críticas também à direita. Os dissabores da França resultam todos de sua ?cultura estatizante?. Os setores públicos e semipúblicos têm um peso exorbitante, que tolhe o dinamismo do país. Sustentam-se ?as despesas públicas com o propósito de estimular o consumo?, muito embora o certo fosse aliviar a carga fiscal, entre outras medidas, como reza a cartilha do liberalismo. O mais grave de tudo, é que essa ?cultura estatizante? não viceja unicamente nas fileiras da ?esquerda?. De forma alguma! A direita também se acha corrompida pelo culto ao Estado, ao intervencionismo etc. Depois de disparar algumas flechas contra seus amigos de direita, Giscard toma fôlego, respira fundo, e deixa claro que ainda não acabou. Resta-lhe ainda uma última colher de fel. A mediocridade das políticas econômicas francesas deve-se ao fato de que as lideranças atuais, não importa o partido, ?raramente brotam de um cultura econômica pujante, como se via nos anos 70?. Como? Anos 70? Ah, sim, foi nessa época que Giscard esteve muito ativo, seja como ministro das Finanças ou presidente. Em outras palavras, ele seria o último representante de uma classe política apta a comandar uma política econômica eficaz. Há quem zombe desse vetusto senhor, que continua a dar ?reguadas? em seus alunos, como um professor a um só tempo querido e odiado. É forçoso reconhecer, entretanto, que a vitalidade intelectual de Giscard continua impressionante, seja pela clareza com que articula seu raciocínio, seja pela vastidão de seus horizontes. Ele é, sem dúvida, um dos políticos mais talentosos da França. Pode-se discutir suas opções (liberalismo, antiestatismo etc), mas não há como não admirar sua sagacidade intelectual. Comenta-se que, ao neutralizar esse personagem, Chirac teria feito um grande favor à Europa. O fato é que hoje, no crepúsculo de uma carreira brilhante, Giscard d?Estaing pode vir a ser o grande europeu que tanta falta faz ao continente em 2002.

Agencia Estado,

08 Janeiro 2002 | 17h01

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