Filippo Monteforte / AFP
Filippo Monteforte / AFP

Giuseppe Conte, o obscuro advogado que derrotou Salvini na Itália

Ele abandonou as salas de aula na Universidade de Florença e se tornou líder de duas coalizões improváveis

Chico Harlan e Stefano Pitrelli / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2019 | 05h00

Ele era uma das 90 pessoas que trabalhavam na faculdade de Direito da Universidade de Florença, com reputação de ser gentil e formal. Sempre apareceu para trabalhar em ternos bem desenhados, e ministrava duas aulas para uma sala do tamanho de um auditório a cada semestre. Então, em maio de 2018, quando outros membros do corpo docente compareceram para aplicar os exames finais de seus cursos, Giuseppe Conte saiu inesperadamente de licença.

A partida inicial de Conte foi bastante surpreendente: ele deixou as fileiras da academia para se tornar primeiro-ministro da Itália. Naquele momento, o país precisava de um árbitro neutro – e intencionalmente desconhecido – para os dois políticos ambiciosos que se juntaram para formar uma improvável coalizão.

Conte era o nome ideal para temperar os rompantes de Luigi di Maio, líder do populista Movimento 5 Estrelas (M5S), que tinha ganhado as eleições na Itália, mas sem apoio suficiente para formar maioria no Parlamento, e Matteo Salvini, o homem forte do partido de extrema-direita Liga

Mas, quando a coalizão nacionalista-populista se separou, há duas semanas, a carreira de Conte teve uma virada ainda mais improvável. Em vez de retornar à Universidade de Florença, ele projetou uma tentativa de permanecer como premiê e liderar um novo governo que melhor se encaixa em suas visões políticas moderadas – desta vez, ao mesmo tempo em que ganha poder mais amplo. “Penso onde ele estava meses atrás e é surpreendente”, disse Patrizia Giunti, chefe de Conte na faculdade.

O governo italiano está dizendo que o “Conte-bis”, como dizem os italianos, em referência ao seu retorno, só foi possível por causa da transformação de Conte. Depois de chegar à política como desconhecido, sobreviveu a um verão turbulento de maquinações nos bastidores, superou o poderoso nacionalista Matteo Salvini e emergiu aos olhos de alguns italianos como uma alternativa discreta e sóbria às personalidades agitadas que muitas vezes dominam a política italiana.

Os jornais italianos notaram outro aspecto da transformação política de Conte: inicialmente, o chefe formal de um governo dominado pela extrema direita, ele agora liderará uma coalizão também improvável, mas entre o M5S e o Partido Democrático (PD), de centro-esquerda.

“Posso imaginar que todo mundo está um pouco cansado da política combativa”, disse Cristina Fasone, membro do Departamento de Ciência Política da Universidade Luis Guido Carli, em Roma. “A personalidade de Conte é vista como a de uma pessoa moderada, que tenta alcançar um acordo e firmar um compromisso.”

Conte, de 55 anos, dificilmente terá uma vida útil longa. A Liga, de Salvini, agora na oposição, continua sendo o partido mais popular da Itália. A nova coalizão é uma união de dois partidos que há muito tempo são rivais. Se ela tiver vida curta, novas eleições poderão colocar Salvini no cargo de premiê.

Enquanto isso, Conte desenvolveu a própria base de apoiadores. Ele costumava ser descrito como subserviente a Salvini e a Di Maio, seus vice-primeiros-ministros no governo anterior. Agora, pesquisas mostram que a população o considera mais confiável que os dois.

Parte do apelo interpartidário de Conte, dizem analistas, é sua inofensividade. Suas contas em redes sociais são anacrônicas: falta de opinião, excesso de diplomacia cuidadosamente formulada. Ele raramente fala sobre sua vida pessoal (é divorciado e tem um filho).

Discurso

Mais recentemente, porém, Conte também escolheu momentos para falar com força – em seu benefício. Quando Salvini separou a coalizão da Liga e do M5S, no início de agosto, em uma tentativa de forçar novas eleições e se tornar premiê, Conte fez um discurso poderoso no Senado. Sua fala se tornou viral, ao censurar Salvini pelo “oportunismo político”, chamando-o de “ministro do Interior”, como se quisesse enfatizar seu lugar na hierarquia.

Um dos amigos mais próximos de Conte, Ettore Maria Lombardi, disse que ele abandonou o “constrangimento”, que era evidente quando se tornou premiê. Lombardi lembrou-se de ter conversado com Conte após uma reunião do G-7, em junho de 2018, onde o premiê conheceu Donald Trump, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Emmanuel Macron. “Como se sentiu?”, ele perguntou. “Foi um momento difícil, mas tive de vestir as roupas de um estadista, pois isso tinha de ser feito”, respondeu Conte.

Lombardi, advogado e ex-aluno de Conte, disse que agora está percebendo em Conte “uma profissionalização, maior compreensão da dinâmica política”. “Quando trabalhava na Universidade de Florença, Conte não falava muito sobre política”, disse Patrizia Giunti, sua chefe na universidade. Mas foi lá que ele desenvolveu a conexão que serviria de trampolim.

Alfonso Bonafede estudou Direito na Universidade de Florença, também servindo como aluno assistente de Conte, e mais tarde subiu nas fileiras do M5S. Quando o partido discutia possíveis ministros, Bonafede exibiu o nome de Conte. A ideia inicial era que ele recebesse a tarefa de limpar a burocracia do país. Mas, como o M5S formara coalizão com a Liga, o papel de Conte se expandiu. “Um advogado para o povo”, disse Conte em um de seus primeiros discursos. 

O governo Conte-bis, segundo indicam os primeiros movimentos, pode afrouxar algumas das políticas anti-imigração mais restritivas de Salvini, enquanto trabalha para consertar um relacionamento com a União Europeia, que se desgastou durante um ano de reação populista em Roma.

O novo governo deve nomear Paolo Gentiloni, ex-premiê do PD, como comissário europeu, em um movimento conciliatório inicial. Tradicionalmente, quando a Itália muda de governo, o premiê que sai entrega um sino ao que entra. Mas, quinta-feira, um funcionário simplesmente entregou o sino a Conte. 

O jornal Il Fatto Quotidiano utilizou em sua primeira página uma ilustração fotográfica que descreve o cenário em termos dramáticos. A imagem mostrava o Conte I entregando o sino ao Conte II. Na parte inferior da página, um Salvini deprimido saindo pela porta. A manchete trazia uma mensagem para o ex-ministro do Interior: “Grandes beijos do Palazzo Chigi”, residência do premiê.

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