Roberto Monaldo/EFE
Roberto Monaldo/EFE

Primeiro-ministro da Itália renuncia, mas articula volta

Giuseppe Conte deixa o cargo antes da votação de uma reforma do Judiciário que seria derrotada, no entanto, tenta uma nova coalizão

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2021 | 09h16
Atualizado 26 de janeiro de 2021 | 19h49

ROMA - O primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, renunciou ao cargo na manhã desta terça-feira, 26. A renúncia, que já era esperada, foi confirmada pelo gabinete da presidente Sergio Mattarella, que vai iniciar um processo de consulta aos líderes partidários para formar um novo governo.

A saída de Conte já havia sido anunciada por partidários após o premiê perder a maioria no Senado,  com a saída do partido Itália Viva da coalizão governista. A sigla do ex-premiê Matteo Renzi rompeu por considerar equivocada a abordagem de Conte à pandemia do novo coronavírus – o país registrava até hoje 2,4 milhões de casos e 85.881 mortes e foi o primeiro do Ocidente a registrar a infecção.

Após o revés no Senado na segunda-feira, Conte convocou um Conselho de Ministros para uma reunião na manhã desta terça-feira para "informar aos ministros de sua intenção de ir ao Quirinale (sede da Presidência da República) a renunciar".

O gabinete de Mattarella confirmou que recebeu a renúncia de Conte, de modo que o presidente vai iniciar um processo de consulta aos líderes partidários na tarde de quarta-feira, 27. Ainda de acordo com as informações divulgadas pela presidência, Conte foi convidado a permanecer no cargo até que as negociações sejam encerradas e um novo nome seja anunciado.

A renúncia do primeiro-ministro ocorre antes de uma votação-chave sobre reformas judiciais, que está prevista para ocorrer no fim desta semana. Comentaristas sugerem que o governo estava prestes a perder a votação, e, sem maioria no Senado, os governistas teriam dificuldade em aprovar qualquer outra matéria, mesmo mantendo o apoio do maior partido do Parlamento, o antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S), que disse que continuaria a apoiar Conte.

Futuro indefinido

Com o fim do segundo governo Conte, chega ao fim também a coalizão formada em setembro de 2019, que uniu o PD (centro-esquerda) e o Movimento 5 Estrelas (antissistema). O governo durou 509 dias.

No entanto, Conte quer continuar no cargo para um terceiro mandato, e espera conquistar o apoio de parlamentares independentes e do Centro.

A oposição de extrema direita, liderada pela Liga - segundo partido numeroso no parlamento italiano -, tenta pressionar para que as eleições sejam convocadas o mais rápido possível, acreditando que uma eleição rápida possa favorecê-la.

Já o partido Forza Italia, do ex-premiê Silvio Berlusconi, oferece apoio para a formação de um governo de unidade nacional. A sigla tem 93 deputados no parlamento italiano, sendo a terceira bancada mais representada.

Camaleão

O primeiro-ministro, um advogado sem experiência política, revelou-se um “camaleão”, capaz de governar com a direita e com a esquerda. Ele ganhou apoio logo no começo da pandemia, ao anunciar medidas para conter as infecções. No entanto, após tantos meses de sacrifícios, a classe política e a população passaram a considerar que era preciso ter mais alternativas para tirar o país das crises sanitária e econômica. 

A decisão está agora nas mãos do presidente Mattarella, árbitro da situação, segundo o atual sistema parlamentar na Itália. 

Um possível terceiro governo presidido por Conte, já chamado pela imprensa de “Conte ter”, teria como objetivo implementar planos-chave para reativar a terceira economia da zona do euro após a pandemia.

“Com um governo que renunciou, tudo fica mais lento e difícil”, disse o chanceler Luigi Di Maio, um dos líderes do M5E. A busca de consenso é, por enquanto, muito complicada. Ele tem o apoio do PD e do M5E, mas teria de buscar aliança com setores da direita moderada e “europeístas”.

A reforma do Judiciário também foi um fator que enfraqueceu Conte. As mudanças propostas pelo ministro da Justiça, Alfonso Bonafede, um dos líderes do M5E, incluíam a adoção de novas regras para julgamentos civis e penais e abolição da controvertida prescrição após a primeira condenação. 

Mas o “advogado do povo”, como Conte é conhecido, ainda se mantém como favorito a continuar no cargo pelo fato de não haver um nome alternativo claro. A hipótese de trocá-lo por Di Maio ou pelo ministro da Cultura, Dario Franceschini, do PD, não ganhou o respaldo dentro da coalizão. Outro fator que afasta os interessados é a eleição presidencial em janeiro do ano que vem, quando certamente uma nova aliança terá de ser formada para dar sustentação ao presidente que assumir./ REUTERS e AFP

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