Globalização mostra sua verdadeira volatilidade

Mudanças políticas que abalam o Oriente Médio também prenunciam um período de instabilidade na região e no mundo com a colisão entre preços do alimento e do petróleo

RICHARD PARKER, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

Situados a 11 mil quilômetros de distância dos manifestantes, da política e dos distúrbios na Praça Tahrir, no centro do Cairo, que motivos têm os americanos para se importar com os dramáticos eventos que se desenrolam ali? Todos os motivos habituais foram sugeridos: o tratado de paz entre Egito e Israel, a importância geopolítica do Egito atrelada ao Canal de Suez, um interesse universal na democracia e nos direitos humanos e o fato de o país abrigar o décimo maior Exército do mundo, no qual os americanos investiram bilhões de dólares. Mas há outro motivo, no mínimo tão importante quanto os já citados.

As mudanças políticas que abalam o Oriente Médio também prenunciam um período de instabilidade na região e no mundo com a colisão entre os preços do alimento e do petróleo. O rápido crescimento de China e Índia e sua demanda ilimitada por recursos traduzem-se em pressão sobre áreas pobres e menos desenvolvidas como o Oriente Médio - e além. Isso, por sua vez, anuncia problemas para o sistema político e econômico global; uma vez mais a globalização mostra sua verdadeira volatilidade.

Em primeiro lugar, o ímpeto por trás da revolta no Egito certamente traz elementos democráticos - mas não teria recebido o apoio da população se não fosse pelas condições de privação econômica em que vive o país. Independentemente da importância de Facebook e Twitter, quase 30% dos 80 milhões de egípcios são analfabetos. Ainda assim, cada um deles precisa se alimentar, e no mês que antecedeu os protestos o preço da comida já acumulava no Egito um aumento constante nos sete meses anteriores, de acordo com as Nações Unidas. Até o preço da gasolina, antes exportada pelo Egito, tinha aumentado a ponto de se tornar difícil chegar ao trabalho.

Zona do petróleo fora. Em segundo lugar, essas tendências não se restringem ao Egito nem ao Oriente Médio. Os países da região que atualmente passam por revoltas, como o Egito, não estão entre os principais exportadores de petróleo.

São em vez disso aqueles que mal se sustentam dentre as economias regionais: Tunísia, Argélia, Jordânia e Iêmen. Depois de uma queda prolongada no preço do petróleo na sequência da recessão de 2008, os preços começaram a subir rapidamente no ano passado porque a demanda por petróleo se manteve constante enquanto a demanda mundial por alimentos aumentou.

A colisão entre o preço dos alimentos e o preço do petróleo está agora afetando não apenas o Oriente Médio, e sim o mundo todo. Um índice de preços globais dos alimentos elaborado pela ONU mostrou um aumento de 25% observado em todo o mundo em 2010. Boa parte desse aumento foi motivado não apenas pelas más colheitas como também pela demanda incansável das economias chinesa e indiana, em franco crescimento.

Deixando Mubarak de lado, o regime egípcio, dominado pelo Exército e formado por 10 mil membros da elite governante, não vai simplesmente entregar o poder a manifestantes que tomaram as ruas. Que ninguém se engane: o papel cada vez mais proeminente do Exército significa seu retorno aberto à política egípcia para manter a estabilidade do regime que os próprios militares criaram por meio de um golpe em 1952. O Exército é uma instituição importante e, de acordo com estudos elaborados pelo Exército americano, mantém vastos interesses na economia - na indústria, na agricultura e na infraestrutura. Tais interesses serão defendidos.

É provável que outros regimes sigam esse exemplo e negociem transformações políticas a seu próprio ritmo, aliviando assim a pressão e preservando tanto poder quanto possível. Isso, por sua vez, continuará a injetar mais risco no preço global do petróleo. Entretanto, em outras áreas do Oriente Médio o risco está no fato de muitos países carecerem de instituições fortes nas quais possam se apoiar durante a transição, como o Exército egípcio. A monarquia da Arábia Saudita, por exemplo, não possui um lastro real. Diante de uma situação parecida talvez fosse forçada a lançar mão de uma dura repressão contra o povo ou aceitar o colapso efetivo.

Alimentos. Para países pobres como o Egito - e para todo o planeta, na verdade -, o preço dos alimentos deve seguir aumentando por causa das interligações cada vez mais inextricáveis da economia global. Há previsão de que a China importará 8 milhões de toneladas de milho, e esse volume pode dobrar até 2015. Apesar das flutuações diárias, o preço do petróleo pode chegar este ano a US$ 100 por barril, de acordo com previsão feita pelo Goldman Sachs no fim de 2010, antes mesmo da queda do governo da Tunísia e dos protestos no Cairo.

O que tudo isso significa para os americanos? Significa que a imprevisibilidade e a volatilidade de uma economia e um sistema político globalizados devem provavelmente seguir ameaçando o curso normal e previsível dos acontecimentos.

Os preços vão aumentar, mesmo enquanto a economia luta para encontrar o rumo da recuperação, e mesmo enquanto muitos ainda procuram por emprego. A população pobre de todo o mundo vai se deparar com condições insuportáveis, às quais certamente reagirá.

Não podemos nos esquecer: os primeiros 10 anos deste século foram marcados por sucessivas revoltas, enquanto a economia e o sistema político globais se mostraram mais difíceis de administrar do que foi previsto 20 anos antes. A década começou com os ataques de 11 de setembro, seguidos pelo pânico financeiro global, por guerras lideradas pelos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão, por mercados financeiros em declínio, por choques no preço do petróleo e finalmente pelo colapso financeiro e a recessão de 2008.

Não é surpreendente, portanto, que a instabilidade global tenha emergido como principal preocupação entre banqueiros, políticos e líderes empresariais reunidos em Davos, na Suíça, para o encontro da superelite mundial. É uma pena que nenhum deles - que nenhum líder em parte alguma do mundo - pareça capaz de domar essa fera. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É EX-CORRESPONDENTE DA KNIGHT RIDDER NEWSPAPERS PARA ASSUNTOS RELACIONADOS À DEFESA E FOI EDITOR-ASSISTENTE DA REVISTA "THE NEW REPUBLIC"

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