Golias abre a carteira

Numa das minhas primeiras lembranças, estou no pátio de uma escola em frente a uma fogueira. As crianças gritam e pulam em volta dela enquanto a professora alimenta as chamas, entre as quais queima um ridículo boneco do Tio Sam. Essa imagem me ocorreu na quarta-feira enquanto ouvia os discursos de Raúl Castro e de Barack Obama sobre o restabelecimento das relações entre Cuba e os Estados Unidos.

Yoani Sánchez, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2014 | 02h03

Gerações de cubanos cresceram sob o bombardeio da propaganda oficial contra os EUA. Quanto mais as palavras contra nosso vizinho do norte se tornavam agressivas, mais nossa curiosidade crescia. Arrasados pela precariedade material, decepcionados porque as chamadas reformas de Raúl não encheram suas carteiras ou seus pratos, os cubanos agora sonham com a trégua material que poderá chegar do outro lado do Estreito da Flórida.

Sem nenhuma luta, David caminha sorrindo ao encontro de Golias, que está prestes a abrir sua bolsa de moedas. O mito do inimigo acabou; a difícil realidade da coexistência começa agora.

Sara é professora numa escola primária de Plaza de la Revolución. Sem a ajuda enviada mensalmente pela filha, ela não conseguiria sobreviver. "Agora, tudo será mais fácil, principalmente porque poderemos usar os cartões de credito e débito americanos, e minha filha está pensando em me mandar um", disse.

Sara decorou sua classe com um cartaz com as imagens dos Cuban Five, os espiões que a propaganda oficial considera heróis (os americanos soltaram os últimos três deles em troca de um cubano que trabalhou como agente da inteligência americana). "Eles voltaram, e teremos de mudar o cartaz."

Bonifacio Crespo ajuda o irmão com a contabilidade no seu restaurante privado em Havana. Eles já têm planos para um novo negócio. "Temos os contatos para começar a importar matérias-primas, especiarias e muitos produtos para o cardápio. Eles terão de aumentar as remessas de lá", afirmou, apontando para o norte.

O dissidente José Daniel Ferrer disse que Havana perdeu seu "álibi" da repressão política e do controle econômico, e a revista independente Convivencia aplaudiu a notícia, mas outros dissidentes temem que o governo ainda tenha de especificar o que fará.

A tensão entre os dois governos durou tanto tempo que agora alguns não sabem o que fazer com seus slogans, com os punhos erguidos contra o imperialismo e sua tendência doentia a justificar tudo, da seca à repressão, porque estão tão próximos do "país mais poderoso do mundo".

O pior são os membros mais recalcitrantes do Partido Comunista, os que morreriam antes de mascar um chiclete, beber uma Coca-Cola ou pôr os pés na Disney World. O primeiro secretário de sua organização acabou de traí-los. Ele fez um pacto com o adversário, nos bastidores, e por 18 longos meses.

Na quinta-feira, o jornal do partido, Granma, demorou para chegar às bancas. Às vezes, isto acontece quando Fidel Castro publica alguns dos seus artigos delirantes sobre a imensidão da galáxia ou Hugo Chávez.

Nos longos minutos de espera, muitos especularam se o Granma chegaria com alguma reflexão do comandante, mas não encontraram nada. Nenhuma evidência que permitisse saber se ele é a favor ou contra o passo arriscado dado pelo irmão. Muitos interpretaram seu silêncio como um sinal do seu delicado estado de saúde, mas não se manifestando, ele confirmou sua morte política, ainda mais reveladora e simbólica do que será sua morte física.

Alguns representantes da sociedade civil não querem que os EUA "apresentem um cheque em branco" ao mais longo regime totalitário do hemisfério ocidental, a não ser que este cumpra quatro exigências.

A primeira é a libertação imediata dos prisioneiros políticos - são mais de cem, estima Elizardo Sánchez, da Comissão Cubana pela Defesa dos Direitos Humanos e da Reconciliação Nacional. A segunda é a ratificação dos pactos referentes à garantia dos direitos humanos da ONU. A terceira, o desmantelamento do aparato de repressão: ataques descarados aos chamados contrarrevolucionários, prisões arbitrárias, demonização e intimidação dos que pensam de maneira diferente e vigilância policial dos ativistas.

Finalmente, o governo cubano terá de aceitar a existência de estruturas cívicas que têm o direito de manifestar opiniões, decidir, questionar e escolher - vozes que não foram representadas nas atuais negociações entre os governos de Cuba e dos EUA. O plano elaborado por aqueles que estão lá em cima nos foi ocultado.

Surgiu uma oportunidade, apesar das críticas válidas de muitos que questionam se o Tio Sam não teria concedido demais, enquanto sua contraparte se mostrou excessivamente avara em oferecer importantes gestos políticos. A sociedade civil precisa aproveitar dela, elevar sua voz, testar os novos limites da repressão e da censura.

Todo mundo vivencia a mudança a sua maneira. Sara sonha com seu novo cartão de débito; Bonifácio especula sobre os novos pratos que incluirá no cardápio; José Daniel Ferrer espera intensificar o ativismo na parte oriental do país. Para cada um deles começa uma nova era. Não podemos confirmar se será melhor, mas pelo menos será diferente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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É JORNALISTA CUBANA E DIRIGE O 14YMEDIO, UM NOVO VEÍCULO DIGITAL INDEPENDENTE EM CUBA

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