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Golpe derradeiro

Com a abstenção dos EUA na ONU, Obama deixa a Israel a condenação internacional

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

27 Dezembro 2016 | 05h00

E Barack Obama se mexeu. Levantou o veto que até agora os presidentes americanos, entre eles o próprio Obama, adotavam sempre que o Conselho de Segurança da ONU tentava condenar as colônias erguidas ilegalmente em território palestino – Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Vale lembrar que essas colônias se multiplicaram desde os anos 70 e mesmo após os Acordos de Oslo, de 1993. Hoje, há 350 mil colonos israelenses na Cisjordânia e 200 mil na parte palestina de Jerusalém.

A classe política israelense entrou imediatamente em erupção. Ameaças histéricas, indignações e maldições fluíram em direção a Obama. A resolução da ONU foi tachada de “vergonhosa”, e Obama, de cara desleal que de repente trai um dos mais sólidos aliados dos EUA, a única democracia do Oriente Médio.

Já se sabe há anos que Obama não pode nem ouvir falar no primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, com sua arrogância, intransigência, etc. Mas, até agora, Obama não mudara a doutrina americana de apoio a Israel. Eis que, subitamente, a poucas semanas de deixar a Casa Branca, ele dá o passo. Pode-se entender a fúria de Netanyahu. Ao se refugiar na abstenção, Obama permitiu que a resolução da ONU condenando os assentamentos israelenses fosse adotada por unanimidade, por 14 países. Israel ficou sozinho, abandonado por seu até então indefectível apoiador americano.

Terremoto. O voto da ONU tem efeitos devastadores. Ele dá credibilidade ao eventual nascimento de um Estado palestino – que Israel conseguiu, graças à colonização, inviabilizar. Além disso, a resolução 2334 pode justificar recursos ao Tribunal Penal Internacional contra certos líderes israelenses.

O golpe foi ainda mais doloroso tendo em vista que se abria para Israel um período abençoado. O vento havia virado. Todos os planetas se alinhavam favoravelmente a Israel com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.

Durante a campanha eleitoral, Trump não economizou sinais de amizade, quase de devoção, em relação à equipe de Netanyahu. Ele designou como embaixador dos Estados Unidos em Israel um defensor apaixonado dos assentamentos, David Friedman, que prometeu mudar a embaixada americana de Tel-Aviv para Jerusalém como sua primeira providência no cargo – dando uma verdadeira “banana” à tese dos dois Estados, detestada por parte dos israelenses. Portanto, o voto da ONU é, de fato, um golpe severo.

Podemos, no entanto, nos perguntar se Netanyahu, como seus apoiadores mais inflamados – o ministro da Defesa, Avigdor Lieberman, e principalmente o partido extremista Bait Yehudi, de Naftali Bennet –, não adotaram a tática de exagerar sua decepção e seus temores.

De fato, Trump assumirá o poder em 20 de janeiro e poderá desfazer com facilidade a armadilha que Obama deixa antes de partir.

O próprio Netanyahu apelou a esse argumento: “A resolução é o canto de cisne do Velho Mundo, cheio de hostilidade contra Israel. Está claro que o governo de Donald Trump reverterá o curso dos acontecimentos”.

Isso, porém, não é tão certo. Mesmo saindo da Casa Branca, Obama deixa atrás de si um ato que não é apenas americano, mas internacional. Ele se vai, mas a resolução 2334 permanece valendo, gravada em mármore no direito internacional. É por isso que autoridades israelenses vociferam contra a hipocrisia do presidente americano e utilizam, para designar a resolução 2334, o termo hebraico “oketz”, que pode ser traduzido por “ferroada”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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