Soe Zeya Tun/Reuters
Soe Zeya Tun/Reuters

Golpe em Mianmar reduz remessa de dinheiro para família de migrantes

Mais de quatro milhões de migrantes de Mianmar trabalham no exterior e enviam dinheiro para suas famílias; em 2019, as remessas chegaram a US$ 2,4 bilhões

Beh Lih Yi e Nanchanok Wongsamuth / Reuters, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2021 | 10h00

KUALA LUMPUR/BANGCOC - Desde que chegou à Tailândia, há alguns anos, a trabalhadora migrante de Mianmar Own Mar Shwe mandava dinheiro para casa todos os meses para sua família comprar comida e remédios. Isso parou abruptamente no mês passado.

Assim como para outros milhões de migrantes de Mianmar que trabalham no exterior e enviam seus salários de volta para casa para dependentes. O golpe de 1º de fevereiro paralisou a importante ajuda para sua família após a interrupção dos serviços bancários e de remessas.

"Estou preocupada com a forma como (minha família) sobreviverá a cada dia", disse Own Mar Shwe, de 41 anos, por telefone, de Samut Sakhon, um centro de frutos do mar tailandês ao sul da capital, Bangcoc.

Ela geralmente envia 6.000 baht (US$ 200) por mês trabalhando em um mercado de camarão, pagando um corretor que usa Wave Money - um serviço de pagamento digital - para transferir o dinheiro para lojas de conveniência em Mianmar, onde seus parentes retiram os pagamentos.

Ela não tem sido capaz de fazer isso desde que os militares depuseram o governo eleito da Nobel da Paz Aung San Suu Kyi há um mês, impondo restrições à internet e provocando protestos de rua em massa, assim como greves de trabalhadores em Mianmar.

"Não sei o que fazer", disse a mãe de três filhos, demonstrando preocupação por sua mãe de 76 anos que está doente e depende de sua renda para comprar remédios.

Mais de 4 milhões de migrantes de Mianmar - de uma população de cerca de 54 milhões - trabalham no exterior em setores como manufatura, agricultura e trabalho doméstico, de acordo com dados das Nações Unidas (ONU). Seus dois principais destinos são a Tailândia e a Malásia.

Muitos deles são fontes de sustento de suas famílias, enviando remessas que totalizaram US$ 2,4 bilhões em 2019, ou mais de 3% do Produto Interno Bbruto (PIB) do país, segundo os números do Banco Mundial.

Transtornos 

Centenas de milhares de pessoas têm se reunido para protestar em Mianmar desde o golpe, pelo menos 31 pessoas já morreram.

Muitas empresas estão fechando para mostrar apoio ao movimento antigolpe ou permitir que seus funcionários participem de protestos durante o horário de trabalho.

Os serviços bancários estão irregulares, com algumas agências fechadas, outras reduzindo as operações e limitando os saques.

Os transtornos levaram vários bancos e empresas financeiras no exterior a suspender temporariamente seus serviços de transferência de dinheiro para Mianmar ou aconselhar clientes a postergar os planos de fazer transferências, alegando possíveis atrasos.

Uma verificação com uma filial do Kasikornbank da Tailândia, em Bangcoc - bem como com a Western Union e agências de transferência internacional de dinheiro na capital da Malásia, Kuala Lumpur - confirmou isso. Outro banco tailandês, o Siam Commercial Bank, disse que seu serviço de transferência ainda está funcionando.

A Western Union, maior empresa de transferência de dinheiro do mundo, disse que "não pode fornecer um prazo definitivo" sobre quando seu serviço de transferência para Mianmar poderá ser retomado, de acordo com uma postagem em seu site em 19 de fevereiro.

“As remessas são extremamente importantes para manter as famílias nos países de origem”, disse Nicola Piper, professora de migração internacional da Universidade Queen Mary de Londres, que estuda a migração laboral na Ásia. 

"A situação atual, ou seja, a covid-19 combinada com a crise política, provavelmente terá um grande impacto sobre os meios de subsistência das famílias deixadas para trás."

Pressão 

Mesmo antes da atual turbulência política, a covid-19 tinha causado um "efeito agudo" na subsistência dos migrantes de Mianmar e suas famílias, com milhões sofrendo perdas de empregos e redução de renda, de acordo com um relatório da ONU no ano passado.

Benjamin Harkins, um funcionário da ONU em Mianmar, disse que a popularidade do uso de canais informais para enviar dinheiro entre os migrantes de Mianmar pode proporcionar algum amortecimento para o fechamento temporário de instituições financeiras formais.

Esses canais são realizados por meio de uma rede de transferência de dinheiro baseada em trust - conhecida como hundi ou hawala - administrada por corretores financeiros não licenciados, e pode levar as remessas de Mianmar para perto de US$ 10 bilhões se esses fluxos informais forem incluídos, acrescentou.

Harkins disse que as remessas se tornaram ainda mais importantes para a subsistência após o golpe, já que a perspectiva de empresas estrangeiras reconsiderarem seus investimentos em Mianmar provavelmente terá um "impacto negativo" no mercado de trabalho local. 

"Além disso, os canais regulares de migração de mão de obra para os principais países de destino, como Tailândia e Malásia, permanecem fechados devido à covid-19", disse Harkins, gerente sênior do Programa do Fundo de Subsistência e Segurança Alimentar da ONU em Yangon, a maior cidade de Mianmar.

“Isso poderia criar uma situação em que a necessidade de remessas é maior do que os trabalhadores migrantes são capazes de atender, contribuindo para um aumento da pobreza nas famílias afetadas e intensa pressão sobre os migrantes para sustentar suas famílias”.

Para Ko Nai Ling, que saiu de Mianmar e chegou à Malásia em 2013 para encontrar um emprego com melhor remuneração para sustentar suas duas famílias de casamentos diferentes, tudo o que ele espera é poder enviar dinheiro novamente em breve.

Ele mal consegue se comunicar com sua família desde o golpe, já que o acesso ao Facebook - usado por metade da população de Mianmar - continua restrito.

"Estou muito preocupado porque sou a única pessoa que os sustenta", disse Ko Nai Ling, de 33 anos, que costumava mandar para casa até 1.200 ringgits (US$ 300) por mês trabalhando em um lava-rápido. "Se não posso enviar dinheiro, não sei como eles vão sobreviver." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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