Golpe nas Maldivas leva violência ao 'paraíso'

Queda de 1º presidente eleito provoca onda de repressão e protestos em arquipélago; oposição pede a turistas que boicotem hotéis do Estado

SOLLY BOUSSIDAN, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2012 | 03h06

Desde 2005, as paradisíacas ilhas que formam as Maldivas não viam um cenário igual: habitantes em confronto nas ruas com as autoridades e forças policiais reivindicando direitos políticos. Para os turistas que visitam o arquipélago no Oceano Índico, poucos são os indícios de que algo de errado ocorre no país. Ao desembarcarem na ilha-aeroporto, estrangeiros seguem diretamente a seus resorts de luxo.

Das mais de 1.200 ilhas que formam o país, somente 200 são habitadas, sendo que 80 são destinadas exclusivamente a resorts. Cada hotel tem sua própria ilha particular. "Turistas parecem apáticos em relação aos acontecimentos das últimas semanas. A maioria não quer saber o que está acontecendo", relata John-James Robbins, editor do jornal local Minivan News. Os revoltosos temem espantar os visitantes e o dinheiro da indústria do turismo, mas pedem que os estrangeiros boicotem hotéis estatais.

Em 2008, Mohamed Nasheed, do Partido Democrático das Maldivas (MDP), derrotou o líder autoritário Maumoon Gayoon, tornando-se o primeiro presidente democraticamente eleito do país. A vitória só foi possível por causa da adoção de uma nova Constituição. Até então, Gayoon havia governado as Maldivas autoritariamente por 30 anos, suprimindo a oposição. Apesar da realização periódica de eleições durante seu regime, opositores eram coagidos a não disputar.

Mesmo derrotado, Gayoon conseguiu manter no poder vários aliados e uma influência considerável sobre o Judiciário. Ele impediu o presidente Nasheed de punir figuras corruptas do antigo regime.

No dia 30 de janeiro, policiais aliados a Gayoon disseram ter encontrado bebidas alcoólicas na mansão de Nasheed. As Maldivas são um país islâmico, que observa a lei religiosa. Bebidas alcoólicas só são liberadas para estrangeiros nos resorts. A "descoberta" fez com que, em uma série de manobras políticas, juízes aliados a Gayoon emitissem uma ordem de prisão contra o presidente. O vice-presidente, Mohamad Wahid, apoiado por militares e policiais rebeldes, tomou o poder e formou um gabinete composto por antigos aliados do ex-ditador. A filha de Gayoon foi nomeada chanceler.

Temendo um retorno aos anos de chumbo - quando turistas viam nas Maldivas um paraíso, enquanto habitantes eram oprimidos -, os habitantes há três semanas têm protestado nas ruas de Malé, a capital, e exigido eleições antecipadas.

"Até o golpe de Estado, a população estava apática. Mesmo aqueles que inicialmente apoiavam o presidente Nasheed sentiam que ele havia se desvencilhado completamente dos preceitos islâmicos. Mas o fato de o novo presidente estar nomeando aliados de Gayoon e arquivando todos os processos criminais e de corrupção contra o antigo regime revoltou a população. Nasheed, que era um presidente cada vez menos popular, agora tem chances reais de ser eleito, caso as eleições sejam realmente antecipadas", afirma Robbins.

Os primeiros dias de protesto tiveram confrontos violentos. Nasheed foi espancado com um cassetete e uma mulher morreu intoxicada com spray de pimenta. A polícia, no entanto, tem evitado usar a força contra os manifestantes. "É uma situação delicada para os policiais não aliados a Gayoon. Por um lado, eles são obrigados a manter a ordem. Por outro, não há profissão mais desprezada no país neste momento. Até crianças têm gritado slogans contra a polícia nas ruas", afirma o jornalista.

Na sexta-feira, uma passeata com mais de mil mulheres tomou a principal rua de Malé sem dificuldades. Ativistas pró-democracia pretendem continuar com as manifestações até que o governo concorde em realizar eleições e abrir um inquérito para apurar as circunstâncias nas quais Nasheed foi deposto.

"Não vamos parar de lutar para termos de volta nossa democracia. Optamos pelos protestos pacíficos e não vamos utilizar a violência. Temos plena capacidade de parar o país, mas em vez disso estamos buscando a via do diálogo e continuamos pedindo aos turistas que venham, desde que não se hospedem em resorts de propriedade do governo", afirma o ativista Imran Zahrir. "Queremos democracia e justiça: eleições livres já e uma investigação imparcial", diz.

O ativista tem mantido contato direto com o presidente deposto e afirma que, apesar de ferimentos leves no primeiro dia de protestos, Nasheed passa bem. "A polícia até o momento optou por não levar adiante a ordem de prisão contra ele. Esperamos que continue assim."

A pressão sobre o governo intensificou-se semana passada, quando a Comunidade Britânica de Nações (Commonwealth) suspendeu as Maldivas do Grupo de Ação Ministerial da entidade, exigindo uma investigação internacional sobre a situação local.

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