AFP | 17.06.2016
AFP | 17.06.2016

Gols contra da Europa

Apesar de seus graves e óbvios defeitos, continuo a acreditar que uma Europa mais forte é indispensável não só para os cidadãos do Velho Continente, mas para todos os habitantes do planeta

Moisés Naím* , O Estado de S. Paulo

20 de junho de 2016 | 05h00

"Europeísta: 1 - adj. Que admira ou simpatiza com a Europa. 2 - adj. Partidário da unidade ou da hegemonia europeias.”Com base nessa definição do dicionário, sou um europeísta. Sim, já sei. Esta não é uma causa fácil de defender nos dias atuais. A lista de falhas, frustrações e hipocrisias do “projeto europeu” é grande, é fácil de compor. Nós a conhecemos.

Mas, apesar de seus graves e óbvios defeitos, continuo a acreditar que uma Europa mais forte é indispensável não só para os cidadãos do Velho Continente, mas para todos os habitantes do planeta. E para a Europa ser forte é necessário que esteja mais integrada e cada vez mais agir de comum acordo.

Meu europeísmo tem como base a convicção de que o mundo seria melhor se os valores europeus fossem mais predominantes do que os que prevalecem na Rússia de Vladimir Putin, na China de Xi Jinping e em muitas outras partes do mundo onde a democracia e a liberdade não são valores fundamentais.

Mas os ventos que sopram sobre a Europa hoje apontam mais para uma desagregação entre as nações do continente europeu do que para a sua integração e para um futuro com menos Europa do que com mais Europa. A possível saída do Reino Unido da União Europeia, no caso de o Brexit vencer o referendo desta semana, seria apenas um exemplo dos gols contra que os europeus estão se infligindo. A proliferação de políticos ultranacionalistas e com propostas radicais contra a imigração é outro lamentável, mas muito real, exemplo desses gols contra.

E a respeito de toda essa temática, algumas evidências interessantes podem ser extraídas de uma recente pesquisa de opinião pública realizada pelo Pew Research Center na Europa.

Em sete das dez nações onde a sondagem foi feita, mais da metade dos entrevistados declarou que seu país deve se concentrar em seus problemas e deixar que os outros resolvam como puderem os seus. Uma porcentagem de 56% dos que responderam à pesquisa são dessa opinião. A Grécia é país onde essa noção é mais popular (83% dos consultados), seguida pela Itália (67%) e França (60%). Na Espanha ela é, comparativamente, menos popular (40%).

No geral, os europeus acham que hoje seu país é menos importante do que era uma década atrás. Assim, 52% dos italianos, 50% dos espanhóis, 46% dos franceses e 40% dos ingleses indagados, acreditam que seu país perdeu influência no mundo. Exceção, é claro, da Alemanha, onde 62% dos entrevistados acham que seu país hoje é mais importante.

A percepção de que o peso do seu país no mundo está em declínio se harmoniza com a sensação de grande vulnerabilidade e graves ameaças à segurança nacional que muitos europeus sentem. Das muitas ameaças enfrentadas pela Europa, o terrorismo do Estado Islâmico foi o mais comumente mencionado como o principal perigo.

Neste sentido opinaram quase todos os espanhóis entrevistados (93%) e a grande maioria dos franceses (91%) e italianos (87%). Em nove dos dez países objeto da pesquisa o EI está em primeiro lugar na lista de ameaças.

As outras duas mais frequentemente mencionadas foram a mudança climática (66% em média e um temor compartilhado por mais da metade dos entrevistados em cada um dos países pesquisados) e a instabilidade econômica global (60%). Na Holanda, 64% não qualificam a crise dos imigrantes como uma grande ameaça, caso também dos suecos (76%) e 58% dos espanhóis. Em compensação, 73% dos poloneses, 69% dos húngaros e 65% dos italianos consideram a recente onda migratória uma séria ameaça. Mas, no geral, nos dez países estudados mais da metade dos indagados não acredita que a questão dos imigrantes seja um risco maior.

Mas talvez uma das conclusões mais inesperadas dessa pesquisa foi sobre o apoio que a União Europeia ainda desfruta. Para 74% dos entrevistados, o organismo deve ter uma maior influência e presença internacionais. Os três países onde esta opinião prevalece são Espanha (90%), França (80%) e Itália (77%). E mais da metade dos britânicos (55%) também deseja isso. Que surpresa! Bom saber que há mais europeístas do que às vezes parece. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É EX-DIRETOR EXECUTIVO DO BANCO MUNDIAL E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE

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