Google adia lançamento de celular em meio a tensão com China

Ataque de hackers a contas de email de ativistas de direitos humanos detonou crise entre empresa e governo

Cláudia Trevisan, correspondente de O Estado de S. Paulo

19 de janeiro de 2010 | 15h50

O Google decidiu adiar o lançamento na China de dois modelos de telefones celulares que usariam seu software Android, em razão da incerteza que cerca o futuro de seus negócios no país. A cerimônia de apresentação dos produtos estava prevista para hoje e seu cancelamento foi anunciado ontem.

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Na semana passada, a empresa norte-americana afirmou que poderá deixar a China caso não chegue a um acordo com as autoridades de Pequim para o fim da censura às buscas realizadas em seu portal chinês, o google.cn _algo bastante improvável.

Maior site de buscas online do planeta, o Google disse ter sido alvo no mês passado de ataques de hackers que operam a partir da China. De acordo com a companhia, a ofensiva levou ao roubo de propriedade intelectual e também teve por alvo contas de e-mails mantidas por ativistas de direitos humanos. Pelo menos outras 20 empresas multinacionais foram vítimas da ação dos hackers, segundo o Google.

O governo chinês voltou a afirmar que as empresas estrangeiras devem obedecer à legislação do país _o que inclui a adesão ao estrito sistema de censura da informação que circula na internet.

"Empresas estrangeiras que atuam na China devem aderir às leis e regulações chinesas, respeitar os interesses do público em geral e suas tradições culturais e assumir suas responsabilidades. O Google não é uma exceção", afirmou Ma Zhaoxu, um dos porta-vozes do Ministério das Relações Exteriores.

Os telefones que seriam lançados hoje foram desenvolvidos pela Samsung e Motorola em colaboração com o Google. Os celulares seriam vendidos pela China Unicom, uma das estatais que atuam nesse mercado, que é o maior do mundo, com cerca de 700 milhões de usuários.

Em tese, a ameaça do Google de sair do país se restringe ao site de buscas voltado para o público local, o google.cn. Mas é pouco provável que a empresa consiga manter negócios em outras áreas depois de um caso tão público de divergências com o governo local, que controla todas as empresas de telefonia e tem enorme poder sobre os provedores de serviços de internet.

Se decidir ficar, é pouco provável que o Google conte com a boa vontade das autoridades para se expandir em um país no qual o aval do Estado é essencial para o sucesso de virtualmente todos os negócios.

O site classificou o ataque à privacidade dos dissidentes de "sofisticado e direcionado", mas não chegou a acusar o governo de ser responsável pela ação.

Na semana passada, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, disse que o incidente "levanta preocupação e perguntas" e afirmou esperar que as lideranças chinesas deem uma explicação sobre a origem do ataque.

Censura

O governo comunista exige que assuntos delicados como democracia e direitos humanos sejam censurados pelas ferramentas de busca e controla fortemente a rede de informação no país.

O Google vinha se submetendo a essas restrições desde que começou a operar na China, há quatro anos, apesar de ter sofrido duras críticas no Ocidente por ceder ao controle do Partido Comunista.

Na China, o conteúdo disponível em sites de busca da internet passa obrigatoriamente pela aprovação do Departamento de Informação e Propaganda.

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