Gorbachev adverte Ocidente contra ingerências na Rússia

O último presidente da antiga União Soviética, Mikhail Gorbachev, advertiu nesta segunda-feira os países ocidentais contra a tentação de intromissão nos assuntos da Rússia, pois a atitude pode ter o efeito contrário do pretendido. Pressionar o presidente russo, Vladimir Putin, em questões como direitos humanos na cúpula que será realizada em julho pelo G8 (os sete países mais ricos do mundo mais a Rússia) em São Petersburgo será contraproducente, alerta Gorbachev em declarações ao jornal britânico "The Times"."A Rússia não é colônia de ninguém e encontrará uma solução (para seus problemas) em conjunto com seus parceiros e amigos. Os presidentes e primeiros-ministros do G8 podem falar o que quiserem. Mas quanto mais pareça que o Ocidente pressiona (a Rússia), mais fortalecido sairá Putin", acrescenta Gorbachev.O artífice da Perestroika e prêmio Nobel da Paz diz ainda que "no fundo, a posição de Putin está muito próxima das aspirações do povo"."Eu mesmo disse que Putin cometeu erros. Mas os princípios da democracia são realizados sobre um contexto concreto, e é preciso levar em conta a situação histórica, econômica e social da Rússia", acrescenta Gorbachev.O ex-presidente soviético, que participou de um seminário em Veneza (Itália) do Fórum Mundial Político por ele fundado sobre "Os meios de comunicação entre os cidadãos e o Poder", se refere, entre outros assuntos na entrevista ao "The Times", à Revolução Laranja na Ucrânia."Foi uma revolução em sua maior parte originada de dentro porque o povo estava farto da corrupção e do regime de (Leonid) Kuchma. Mas a embaixada dos Estados Unidos esteve muito envolvida, e está claro que esse país tem uma grande experiência em imiscuir-se nos assuntos alheios", afirma Gorbachev."Se tivesse ocorrido algo assim nos Estados Unidos, tenho certeza de que as autoridades teriam acabado com a ingerência exterior", acrescenta. Gorbachev qualifica freqüentemente de hipócrita a suposta preocupação do Ocidente com os direitos humanos e cita como exemplo o recente discurso na Lituânia do vice-presidente americano, Dick Cheney, no qual criticou a Rússia.O ex-presidente russo rejeita, por outro lado, as acusações ocidentais de que Putin utiliza suas reservas de gás como arma política, como quando o grupo estatal russo Gazprom suspendeu seu fornecimento à Ucrânia por causa de uma disputa sobre o preço. "Isso não é verdade e estou disposto a apostar minha cabeça. A Rússia não está menos interessada que a Europa em um fornecimento e uma demanda confiáveis tanto de petróleo como de gás", disse."O estranho - critica - é que o Ocidente nos recomende adotar um livre mercado no gás natural e que, quando este começa a funcionar, proteste porque cobramos preços de mercado".

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