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Gordura emergente

Foi um encontro fugaz, mas didático. No assento do meu lado, na ponte aérea Rio-São Paulo, estava um diretor de marketing do McDonald's. Para minha sorte. É que as filiais brasileiras da marca acabaram de aderir à moda "light" global, adicionando ao menu verduras e frutas. Resolvi me servir da oportunidade.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2014 | 02h02

Quis saber como andava a novidade e qual era o peso das opções "saudáveis" no balanço da empresa. "Nenhum", devolveu o marqueteiro, entre punhados de amendoins e goles de refrigerante. "A gente oferece porque é bom e atende à demanda social. Mas, convenhamos, quem vai ao McDonald's para comer alface?", questionou.

Só faltou dizer "bom apetite". A crise da obesidade e seus estragos globais não são mais mistério. Tampouco as raízes da mazela. A ascensão da classe média, a morte do almoço caseiro, os guloseimas de pronta entrega e as maravilhas da tecnologia - do controle remoto à escada rolante - que tanto nos poupa suor.

Se a epidemia começou na pátria do McDonald's, agora a pança também é nossa. Esse mundo - que me perdoe Sérgio Augusto - é um padeiro e quase não há cultura nem casa que escape de seu feitiço. Pior, justamente agora, quando surgem sinais de melhora entre os americanos, é a cintura dos emergentes que se dilata.

Ano passado, o México ultrapassou os EUA para se tornar o país mais gordo do planeta. Seu número de obesos dobrou em uma década. Já são 32,8% da população mexicana, um ponto à frente dos americanos, segundo um estudo das Nações Unidas.

Os mexicanos não estão sozinhos. Em 1980, três em dez adultos na América Latina eram considerados "fora de forma". Na virada do século, pularam para 60%. Dois em cada três brasileiros estão fora da medida. Ricos, pobres e aspirantes. Atualmente, somos todos balofos.

Papel do Estado. Mas não somos mais relaxados. A América Latina ultimamente faz escola com suas arrojadas iniciativas de engenharia comportamental. Uruguai regulamentou a venda da maconha. Vários países latinos chancelaram o matrimônio homossexual. Agora avançam em bloco sobre o junk food.

Em janeiro, o México estreou um tributo sobre alimentos engordativos. A taxa incide sobre todos os comestíveis com mais de 275 calorias em cada 100 gramas. O litro de refrigerante sobe 8 centavos e o preço do chiclete, 16 %.

O Chile agora exige que os fabricantes de comida emplastrem suas embalagens com advertências sobre teor de sal, açúcar e gordura. Ainda proibiu a propaganda direcionada a menores. A Costa Rica, o Peru e o Uruguai eliminaram comidas super calóricas da merenda escolar. O Equador estampa sinais de trânsito nos pacotes de comidinhas: verde para saudável, vermelho para porcaria.

Nutricionistas, médicos e muitos políticos americanos aplaudem as iniciativas. Vislumbram nas latitudes latinas uma segunda chance para emplacar a proibição frustrada. Mais de 30 Estados ou municípios americanos já tentaram taxar bebidas e comidas ultra açucaradas e todos fracassaram.

Entre os votos vencidos estão o do bilionário Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York, derrotado nos tribunais, e o da Dinamarca, que viu seus gulosos atravessarem as fronteira para driblar o imposto nacional sobre as comidas gordurosas.

Se a engenharia social latino-americana vai fazer diferença alguma, é outra história. Na semana passada, um estudo para a Revista da Associação de Medicina Americana, sacudiu os corredores de poder. A pesquisa, que rastreou nove mil crianças americanas, mostrou que a obesidade infantil despencou. Em 2004, 14% das crianças de 2 a 5 anos eram obesas. Agora são impressionantes 8%.

Não foi a proibição que emagreceu a criançada americana, tampouco os impostos que engordam os cofres oficiais. Foi, sim, fruto de um conjunto de práticas e políticas que mudaram corações e mentes, como o incentivo à amamentação, mais frutas e menos sucos açucarados na cantina da escola e, principalmente, educação alimentar em casa. Nada como um prato balanceado para nutrir a boa política.

É COLUNISTA DO 'ESTADO',

CORRESPONDENTE DO 'DAILY BEAST' E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM.

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