Gorki, o punk que desafia o regime de Cuba

Do underground de Havana, roqueiro expressa ?ódio à tirania? e irrita o alto escalão do Partido Comunista

Marc Lacey, The New York Times, Havana, O Estadao de S.Paulo

22 de setembro de 2008 | 00h00

Alguns marcham para protestar contra seus governos. Gorki Luis Águila Carrasco, vocalista da banda de punk rock cubano Porno para Ricardo, expressa sua contrariedade girando em torno de um microfone, agarrando uma guitarra elétrica e vomitando algumas das letras mais de mau gosto e estridentes de que se tem notícia.Entre a fieira de imprecações que ele berra em seus concertos underground estão críticas ousadas a Fidel e Raúl Castro, os líderes de Cuba. Não sai barato: ele foi preso pelas autoridades recentemente, sob a acusação de "periculosidade social". Mas Gorki, como é conhecido, voltará a cantar. Depois da indignação geral provocada por sua prisão, as autoridades cubanas retiraram a acusação. Em vez disso, foi condenado por desordem pública e multado em 600 pesos, cerca de US$ 28 - um mês de salário em Cuba.Com uma vasta cabeleira preta encaracolada tão selvagem como sua persona, Gorki não é o único artista despudorado do país. Mas talvez vocifere como nenhum outro contra o comunismo cubano. Zomba da revolução e investe em termos diretos contra Fidel e Raúl. O logotipo do grupo é o símbolo da foice e do martelo estilizado numa imagem pornográfica."O Comandante realiza eleições que ele inventou para conservar o poder", diz ele de Fidel na música El Comandante. "O Comandante quer que eu trabalhe e ele me paga um salário miserável. (...) Não coma, Comandante, porque você é um tirano e ninguém suporta você".Gorki tem recebido apoio de críticos mais tradicionais do governo, como Elizardo Sánchez, que dirige um grupo de direitos humanos não autorizado, e Yoani Sánchez, uma blogueira desbocada que escreveu recentemente sobre Gorki: "Ele canta, rebola e grita em suas letras de rock sangrentas o que outros calam de medo."O governo cubano permaneceu em silêncio sobre os problemas legais recentes de Gorki, que já fora condenado em 2003 numa acusação envolvendo drogas e passou quase dois anos encarcerado. O roqueiro atribui essa prisão à armação de uma jovem que fingia ser sua fã, mas na verdade trabalhava para os órgãos de segurança do Estado. Músico autodidata e pai de uma garota pré-adolescente, Gorki, de 39 anos, diz que cresceu ouvindo rock americano e inglês, especialmente Deep Purple, Led Zeppelin e The Clash. Usa sempre uma camiseta na qual chama 1959, o ano da revolução cubana, de "ano do erro". Seu nome homenageia Maxim Gorki, o escritor russo e fundador do realismo socialista literário. Os ensaios ruidosos da banda, fundada há uma decada, são feitos num pequeno apartamento no bairro de Playa, em Havana, que Gorki divide com seu pai, Luis, de 75 anos. Os concertos são realizados clandestinamente e a divulgação funciona por meio do boca em boca. Suas canções recentes incluem uma chamada Dinossauros, que se refere à liderança cubana. Outra, El General, fustiga Raúl Castro como uma farsa. Após sua saída da prisão, ele declarou que trabalha na seqüência de El Comandante, a canção sobre Fidel, que se chamará El Comandante II. Além de Gorki, a banda underground é integrada por outros dois músicos.

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