Governador de Buenos Aires desponta como um sucessor ‘light’ para Cristina

No comando da maior província da Argentina, Daniel Scioli é tido como um dos mais fortes concorrentes na corrida pela Casa Rosada, que começará no dia 28, quando ocorrem eleições parlamentares e o mapa da política começa a ser definido

Ariel Palacios, Correspondente em Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

12 de outubro de 2013 | 17h46

Analistas políticos argentinos concordam que a partir do dia 28 - dia seguinte às eleições parlamentares que definirão o mapa do poder dos próximos dois anos - começa a campanha para as eleições presidenciais de 2015. E nesta maratona, o principal presidenciável é o governador da maior província, a de Buenos Aires, o peronista Daniel Scioli, um kirchnerista "light" que conta com a simpatia dos mercados.

Scioli, que fez da paciência seu principal insumo político, é um dos políticos argentinos que exercita a arte do consenso, algo raro no país marcado pela política do confronto. A presidente Cristina Kirchner não aceita Scioli, em quem nunca confiou. No entanto, ela está cada vez mais frágil, já que seus aliados cancelaram os planos de reforma constitucional para permitir reeleições ilimitadas (o plano denominado "Cristina eterna"). Além disso, na segunda-feira foi internada para retirar um hematoma próximo ao cérebro (cirurgia realizada na terça). Ela estará de licença médica por um mês, fora da arena política.

Um dos históricos kirchneristas, Carlos Kunkel, admitiu na quinta-feira, 48 horas após a cirurgia: "Cristina não é imprescindível". Jorge Landau, outro histórico peronista, articulador leal do kirchnerismo (que no passado também declarou fidelidade aos ex-presidentes peronistas Carlos Menem e Eduardo Duhalde), declarou, sem sutilezas, que após as eleições parlamentares começa a corrida eleitoral pela presidência.

"O sobrenome Kirchner perderá gradualmente sua força centrípeta da política", disse ao Estado um diplomata argentino que conhece profundamente o Brasil. "Lula preparou uma sucessora, Dilma. Mas Cristina, tão egocêntrica, não preparou um sucessor fiel. Terá de se contentar com Scioli", explica o diplomata, para quem o personalismo da gestão de Cristina arrasou qualquer chance de preparar um "delfim".

Em 2011, pouco após ser reeleita, Cristina havia começado a preparar seu vice, Amado Boudou, para 2015. Mas uma série de escândalos de corrupção acabaram com essa alternativa. Boudou, segundo várias pesquisas, é o integrante do governo Kirchner com pior imagem popular. Ele é formalmente o presidente desde a internação de Cristina, mas quem governa é um pequeno grupo de confiança dela, entre eles o secretário legal e técnico Carlos Zannini, e o primogênito, Máximo Kirchner.

Fora do grupo, mas trabalhando ao lado, está Scioli. O governador, segundo o colunista político Carlos Pagni, do jornal La Nación, apresenta-se como o "avalista da ordem pós-kirchnerista" ao mesmo tempo que dá sinais à Casa Rosada de que ele seria um "sucessor solidário".

Scioli administra uma província que concentra quase quatro de cada dez eleitores argentinos e produz um terço do PIB. Seus assessores sustentam que nas eleições primárias de agosto a população mostrou sua irritação com Cristina. Na ocasião os candidatos da presidente obtiveram 26% dos votos em todo o país. A oposição aglutinou 74%. Para contar com o respaldo de Cristina e atrair os dissidentes, os aliados de Scioli recauchutaram um velho slogan, de olho nas eleições de 2015: "a continuidade com mudanças".

Durante vários anos Scioli dedicou-se à vida de playboy e de piloto de lanchas de corrida. Em 1989, em uma competição no delta do rio Paraná sofreu um acidente que decepou de seu braço direito. Ele faz piada: "O rio Paraná agora tem mais um braço".

Casado com uma ex-modelo, Scioli foi eleito deputado em 1997 com o respaldo de Menem. Logo, virou secretário de Turismo. Em 2003, Néstor Kirchner, precisava um vice que tivesse uma relação cordial com o establishment e não fosse um futuro rival. O escolhido foi Scioli. O kirchnerismo recorreu à boa imagem de Scioli para ganhar a eleição do governo da Província de Buenos Aires em 2007. Foi reeleito governador bonaerense em 2011. "Scioli não tem brilho. Mas possui uma paciência e uma capacidade de sobrevivência impressionantes", disse ao Estado um ex-ministro poderoso nos governos de Néstor e Cristina.

Tudo o que sabemos sobre:
Argentina

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.