Governadores assinam acordo com De la Rúa

Um grupo de governadores do Partido Justicialista (Peronista) cedeu às pressões dos mercados e aos apertos econômicos e assinou o acordo financeiro com o governo do presidente Fernando de la Rúa. O anúncio de que haviam assinado as províncias de Jujuy, Formosa, Misiones e Tucumán, foi feito pelo ministro da Economia, Domingo Cavallo. Na semana passada, De la Rúa somente havia obtido a rubrica dos governadores da UCR, seu partido, além dos aliados. Os governadores peronistas haviam rechaçado o acordo em massa, alegando que era "uma extorsão". No entanto, pressionados pelas dívidas e a falta de fundos para pagar os salários dos funcionários públicos provinciais, além dos fornecedores dos Estados, este grupo resignou-se e decidiu assinar. O ministro Cavallo disse esperar que, nos próximos dias, os demais governadores peronistas venham a assinar o acordo. Na lista dos que ainda não assinaram estão os governadores das principais províncias do país, como Buenos Aires, Córdoba e Santa Fé. Sem eles, o acordo seria considerado incompleto pelos mercados. O chefe do gabinete de ministros, Chrystian Colombo, reuniu-se com os governadores "rebeldes" para tentar chegar a um acordo. Segundo Colombo, a assinatura poderia ser feita ainda esta semana. Nos mercados, espera-se que o acordo saia em breve, já que os governadores não poderiam dar-se o luxo de resistir muito mais tempo. Os casos de Buenos Aires e Córdoba são dos mais graves. Respectivamente devem US$ 5,49 bilhões e US$ 1,36 bilhão. Com este acordo, os quatro governadores peronistas aceitam que o pagamento das dívidas (um total de US$ 843 milhões) que a União possui com as províncias seja realizado integralmente em Lecops - bônus emitidos pelo governo federal com a intenção de funcionar como uma "pseudo-moeda" - com os quais os governadores poderão pagar os funcionários públicos provinciais e fornecedores do Estado. Além disso, segundo Cavallo, os governadores aceitaram que, no ano que vem, o governo reduza em 13% as remessas federais mensais de US$ 1,36 bilhão. Caso a arrecadação tributária não melhore, as remessas seriam enviadas para em lecops (40%) e parte em dinheiro. Em troca, as províncias receberão a ajuda do governo federal para refinanciar suas dívidas com um grupo de bancos, com taxas de juros de 7% ou a taxa Libor mais 300 pontos básicos. Atualmente, a maioria das províncias possui bônus com taxas médias de 11%, embora existam casos de taxas superiores a 20%. Segundo Cavallo, com esta operação as províncias economizarão US$ 1 bilhão anual em juros. O ministro explicou que o capital poderá ser amortizado em três anos para os vencimentos que caírem nos anos 2002, 2003 e 2004. Cavallo também anunciou que na sexta-feira serão divulgados os detalhes dos contratos que serão assinados pelos investidores que queiram participar da operação de reestruturação da dívida pública. O ministro disse que aposta que haverá "uma ampla participação, que significará uma forte redução do custo da dívida não somente para a União, mas também para as províncias". Segundo ele, a operação de reestruturação com os credores internacionais demorará dois ou três meses. No entanto, admitiu que não espera ajuda extra dos organismos financeiros internacionais. O ministro também negou os rumores que circularam nesta terça-feira, sobre sua renúncia. Os boatos surgiram depois que foi divulgada a renúncia da ministra da Seguridade Social, Patricia Bullrich, uma aliada tática de Cavallo. Renúncia Patricia Bullrich era a integrante do gabinete presidencial de maior linha-dura para com as centrais sindicais. Desde meados do ano sua cabeça era pedida pelos sindicalistas, que ela queria investigar por suspeitas de enriquecimento ilícito. Ex-militante do movimento guerrilheiro Montoneros e descendente de algumas das mais aristocráticas famílias do país, Bullrich - apelidada de "La Piba" ("a garota") - era considerada uma "delaruísta pura", embora de origens peronistas. Até três semanas atrás, Bullrich havia sido ministra do Trabalho. No entanto, dentro de um remanejamento interno do gabinete presidencial, foi colocada no comando do recém-criado ministério da Seguridade Social. A intenção era apaziguar os sindicalistas - irados com as investigações de Bullrich - e ao mesmo tempo, colocá-la no comando dos planos de assistência social. Mas a passagem de "La Piba" para o novo ministério só causou mais problemas internos, já que ela entrou em choque com o novo ministro do Trabalho e o ministro do Desenvolvimento Social. A diretoria da Confederação Geral do Trabalho (CGT) dissidente comemorou a renúncia de Bullrich com entusiasmo. Com uma de suas mais fiéis colaboradoras fora do governo, o presidente De la Rúa partiu para a Alemanha para inaugurar uma estátua do herói da independência argentina, o general José de San Martín. Diante das brigas do gabinete De la Rúa e da confissão de Cavallo de que o país não contará com ajudas adicionais, os mercados - que tiveram uma jornada otimista em todo o mundo - reagiram negativamente sobre a Argentina. A Bolsa de Buenos Aires fechou em queda de 1,11%. A taxa de risco do país continuou subindo, e passou de 2.504 pontos para 2.551 pontos, ultrapassando seu próprio recorde histórico.

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