EFE/EPA/JUSTIN LANE
EFE/EPA/JUSTIN LANE

Liberação de uso de máscara nos Estados atrapalha plano de Biden de saída da pandemia

Governo Biden afirmou que a orientação federal para o uso de máscaras não mudará por agora, mas tem buscado conselhos de especialistas em saúde a respeito dos próximos passos

Sheryl Gay Stolberg, The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2022 | 18h34

WASHINGTON — A Casa Branca tem se reunido com especialistas em saúde independentes para planejar uma estratégia de saída da pandemia e transição para um “novo normal”, mas o esforço nos bastidores está sendo confrontado com uma realidade bastante pública: Uma série de governadores democratas está se adiantando ao presidente Joe Biden e abandonando a obrigatoriedade de uso de máscaras, especialmente em lugares públicos. 

Anthony Fauci, o principal conselheiro médico do presidente, e Rochelle Walensky, diretora dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) expressaram otimismo a respeito do rumo da pandemia. Se o número de casos de covid-19 continuar caindo e nenhuma nova variante emergir, o país poderia estar a caminho do que consideraríamos uma maior normalidade, afirmou Fauci em entrevista. 

Mas Fauci alertou que a situação ainda é imprevisível e qualquer transição de saída da atual crise será gradual. Já Walensky salientou que, mesmo que sua agência esteja trabalhando em novas diretrizes para os Estados, ainda é cedo demais para todos os americanos pararem de usar máscaras em locais públicos fechados. 

“Nossas hospitalizações ainda estão em alta, nossos índices de mortes ainda estão altos”, afirmou ela durante uma entrevista coletiva da equipe de resposta à covid da Casa Branca. “Então, mesmo que estejamos trabalhando para isso e encorajados pelas atuais tendências, ainda não chegamos lá.” 

Um duelo federativo

O frenesi dos governadores em abandonar obrigatoriedades de uso de máscaras ocorre no momento em que o coordenador da resposta da Casa Branca à covid, Jeffrey Zients, e os mais graduados médicos do governo federal estão se aconselhando com uma ampla gama de especialistas em saúde pública, incluindo alguns ex-conselheiros de Biden que pediram publicamente que o presidente mude de rumo.

Zients mencionou brevemente essas reuniões na quarta-feira, afirmando que a Casa Branca também está em contato com governadores e autoridades locais de saúde para discutir passos que deveríamos estar dando para manter o país seguindo adiante. 

As conversas, de acordo com vários participantes, têm como objetivo a elaboração de uma nova cartilha para a delicada próxima fase da pandemia, quando a ameaça do coronavírus tende a diminuir mas a possibilidade de uma nova variante e um novo surto mortífero continua bastante real. Eles estão tratando de uma série de temas além de uso de máscaras e mitigação, como maneiras de fornecer os novos antivirais para pessoas que testarem positivo para o vírus e a necessidade de modernizar os sistemas de ventilação das escolas. 

Lentidão na Casa Branca

Mas as lentas deliberações, tanto no CDC quanto na equipe de Zients, estão complicando a situação da Casa Branca. Enquanto as autoridades examinam dados científicos e esboçam um rumo cuidadoso, elas correm o risco de fazer o governo Biden parecer irrelevante, à medida que os governadores seguem adiante por conta própria. 

“O governo precisa entender o ambiente e perceber que quase todos os líderes eleitos estão mobilizando-se sem ele”, afirmou Leana Wen, ex-comissária de saúde de Baltimore que tem expressado com frequência críticas contra o governo, acrescentando que, “Ninguém espera que o CDC afirme que todos devem sair sem máscaras neste momento. Eles estão em busca de métricas claras a respeito do momento em que as restrições poderão ser levantadas e quando precisarão retornar.” 

Os próprios governadores disseram isso. Na semana passada, após um grupo bipartidário de governadores encontrar-se com Biden, o governador do Arkansas, Asa Hutchinson, um republicano, disse a repórteres que enfatizou ao presidente que o país precisa “sair da pandemia” e pediu a ele “diretrizes clara sobre como podemos retornar para um estado de maior normalidade”. 

Agora está claro que os Estados decidiram não esperar. Na quarta-feira, os governadores de Nova York, Rhode Island, Massachusetts e Illinois juntaram-se a uma crescente lista de democratas que abandonaram ou a obrigatoriedade estadual generalizada para uso de máscaras ou a que se aplica às escolas. 

Ciência x política

Questionada a respeito das manobras, Jen Psaki, a secretária de imprensa da Casa Branca, afirmou que o presidente está comprometido em cumprir sua promessa de campanha de ouvir os cientistas e agir de acordo com os dados. “Isso não se move na velocidade da política”, acrescentou ela. “Move-se na velocidade dos dados.”   

O debate interno ocorre no momento em que o mais recente surto de covid-19, alimentado pela altamente infecciosa variante Ômicron, se abranda em grande parte do país. A média semanal de novos casos estava em aproximadamente 227 mil, contra 800 mil em meados de janeiro. O número de hospitalizações também está diminuindo, apesar do índice de mortes, um indicador defasado, apresentar estabilidade. 

Decisões difíceis 

Se a queda nos números de novos casos e hospitalizações continuar, como muitos especialistas preveem, Biden logo terá algumas decisões difíceis para tomar: Ele deveria declarar o fim do estado de emergência nacional declarado por seu antecessor, Donald Trump, em março de 2020? Deveria suspender a obrigatoriedade do uso de máscaras que impôs em viagens de avião, trem e ônibus?

Biden deve ser cuidadoso para evitar um momento de “missão cumprida”. Em junho do ano passado, diante de uma queda no número de novos casos, seus conselheiros começaram a prever um “verão da alegria”, e o próprio Biden declarou em 4 de julho que os Estados Unidos estavam “mais próximos que nunca de declarar nossa independência de um vírus mortífero”. E então a variante Delta varreu o país. No fim do outono, o surgimento da ainda mais contagiosa variante Ômicron também pegou o governo de surpresa. 

Michael Osterholm, diretor do Centro para Pesquisa de Doenças Infecciosas e Políticas da Universidade de Minnesota, afirmou que qualquer estratégia deve levar isso em conta.

Obrigatoriedades amplas de uso de máscara estão sendo suspensas em muitos Estados à medida que a Ômicron esmorece, mas nem todos estão felizes com isso. “A estratégia tem de reconhecer que estamos entrando em uma nova fase da transmissão do vírus em nossas comunidades, ser totalmente consciente de que hoje estamos exatamente no mesmo ponto que um ano atrás, quando os casos diminuem após um pico em janeiro e as vacinas estão fluindo”, afirmou ele. “E olhe o que isso nos deu.”

As decisões de uso de máscara do CDC são especialmente tensas: É difícil, afirmam especialistas, emitir uma recomendação adequada para toda e qualquer situação para um país tão extenso e variado quanto os EUA. 

“É uma situação desafiadora, porque é evidente que as pessoas estão realmente ansiosas para retornar a alguma sensação de normalidade”, afirmou Celine Gounder, especialista em doenças infecciosas que recentemente juntou-se à Kaiser Health News como editora remota. “Isso varia muito no país: a taxa de transmissão, o índice de vacinação. Mas o CDC produz diretrizes para o país inteiro, então faz sentido para eles serem cautelosos.” 

Politização das máscaras

O uso de máscaras tem sido um dos temas mais contenciosos da pandemia. Muitos governadores republicanos descartaram a obrigatoriedade de uso de máscaras em seus Estados há muito tempo. Alguns, como o governador da Flórida, Ron DeSantis, baniu a obrigatoriedade de uso de máscaras e ameaçou penalizar autoridades escolares que desafiassem o banimento. As ações foram duramente criticadas por Biden, que ordenou à sua secretaria de educação abrir processos judiciais federais sobre direitos civis para impedir os Estados de barrar o uso de máscaras nas salas de aula.  

Biden já tem sinalizado que está se antecipando à pandemia. Em declarações numa conferência de imprensa, em meados de janeiro, ele afirmou que o país está “se movendo na direção de um tempo em que a covid-19 não perturbará nossa vida cotidiana, quando a covid-19 não será uma crise, mas algo do que se proteger”. Mas o presidente também disse que “ainda não chegamos lá”. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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