Governo acredita que EUA espionaram conteúdo de mensagens de brasileiros

Desconfiança. EUA alegam que seu sistema monitorou apenas origem e destino de telefonemas e e-mails, mas ministro das Comunicações do Brasil, Paulo Bernardo, está 'convencido' de que Washington teve acesso também ao teor das conversas

ARIEL PALACIOS , JOÃO VILLAVERDE , ENVIADOS ESPECIAIS / MONTEVIDÉU , LU AIKO OTTA , EDUARDO RODRIGUES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2013 | 02h03

Enquanto chanceleres do Mercosul debatiam ontem, em Montevidéu, uma resposta comum à revelação de que os EUA espionaram os países da região, o ministro das Comunicações do Brasil, Paulo Bernardo, afirmava no Senado que o governo está "convencido" de que as agências de Washington tiveram acesso também ao conteúdo das mensagens monitoradas.

Até agora, a alegação dos EUA é a de que seu sistema monitorou apenas registros sobre origem e destino de chamadas telefônicas e e-mails.

Numa audiência pública no Senado, Bernardo disse que o embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon admitiu que os EUA recolhem "metadados" - informações como número de telefones e tempo de chamada -, mas acrescentou que, se necessário, poderia aprofundar essas informações. "Se eles podem aprofundar, é porque têm tudo gravado", concluiu.

Bernardo disse também que a presidente Dilma Rousseff poderá aproveitar o discurso de abertura na Assembleia-Geral da ONU, em setembro, para engrossar a pressão pela adoção de normas internacionais de proteção à privacidade. "É razoável que isso aconteça, até porque um dos temas da reunião é a sociedade da informação", disse.

O ministro ressalvou que não havia conversado com a ela a respeito. "Posso levar uma bronca quando sair daqui."

A reunião de presidentes do Mercosul, hoje, em Montevidéu, será outra ocasião para angariar apoios para o Brasil. "Certamente vai ser conversado lá", disse o ministro.

O documento final da cúpula deve conter uma manifestação firme de Brasil, Argentina, Uruguai e Venezuela sobre as denúncias de espionagens feitas pelos EUA em países sul-americanos.

Segundo o chanceler brasileiro, Antonio Patriota, há um "consenso regional para repudiar tais atos".

Os diplomatas de vários países que estão no Uruguai passaram todo o dia de ontem discutindo qual seria a melhor forma de reagir ao esquema de espionagem e, ao mesmo tempo, como adotar ações contra tais práticas.

"Vamos acionar o sistema multilateral, uma vez que existem áreas em que se pode prever uma ação dentro de certos marcos jurídicos, como a Convenção de Viena e a Declaração Universal de Direitos Humanos", afirmou Patriota. "Esses marcos oferecem base para eventuais ações."

"Além do repúdio, acho que a reivindicação de muitos países, favoráveis a uma governança multilateral da internet, que tem enfrentado objeções significativas dos países desenvolvidos em fóruns como a União Internacional de Telecomunicações, poderá sofrer mudanças com essas denúncias", disse Patriota ontem, durante rápido intervalo da reunião entre chanceleres do Mercosul. "O ambiente internacional poderá mudar", afirmou o chanceler.

Os ministros de Brasil, Argentina, Uruguai e Venezuela também discutiram a situação de Edward Snowden, responsável pelo vazamento das informações que comprovavam a espionagem americana em diversos países. Considerado foragido pelos EUA, o ex-agente permanecia ontem numa área de trânsito de um aeroporto de Moscou.

Ele recebeu oferta de asilo político da Venezuela e da Bolívia. "É possível que haja discussão paralela sobre o asilo e estamos coordenando sobre os termos dessa decisão", admitiu Patriota. Snowden também havia solicitado asilo - entre vários outros países - do Brasil. Mas o Itamaraty decidiu ignorar o pedido, uma vez que foi feito fora do território brasileiro.

Evo. Há dez dias, o presidente boliviano, Evo Morales, teve de desviar a rota de seu voo após visita à Rússia, porque os governos de França, Itália, Espanha e Portugal suspeitavam que Morales trazia Snowden em sua aeronave. Segundo Patriota, o fato foi "inusitado e sem precedente". O incidente diplomático preocupa os líderes sul-americanos. "Nós vivemos um ambiente de plena democracia e esse tipo de comportamento é considerado inaceitável de forma unânime na região", disse o ministro brasileiro.

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