Governo afegão admite dificuldade em evitar novos ataques do Taleban

Grupo extremista promete onda de violência na quinta-feira, dia da eleição, e clima segue tenso no Afeganistão

Lourival Sant'Anna, CABUL, O Estadao de S.Paulo

17 de agosto de 2009 | 00h00

Antes do atentado de sábado com carro-bomba, as forças de segurança frustraram 62 tentativas de ataques do Taleban em Cabul nos últimos seis meses. A informação foi dada ontem pelo ministro do Interior do Afeganistão, Mohammad Anif Atmar, em entrevista coletiva conjunta com o ministro da Defesa e o chefe do Diretório Nacional de Segurança (NDS), o serviço secreto afegão. Na entrevista, o ministro da Defesa, Abdul Rahim Wardak, reconheceu que "de maneira alguma se pode garantir com 100% de certeza que outros atentados terroristas não ocorrerão".Wardak justificou dizendo que é muito difícil combater "esse tipo de inimigo, que não tem dignidade nem valores humanos". Segundo ele, seria necessário revistar cada carro para evitar um atentado à bomba. "Não vamos ceder à pressão do inimigo para mudar o estilo de vida dos cidadãos nem violar seus direitos." Wardak disse que EUA, Inglaterra, Espanha, Índia e Indonésia "são testemunhas" da dificuldade de lidar com os ataques suicidas, referindo-se a atentados que ocorreram nesses países. Para Atmar, o fato de esse ter sido o primeiro atentado em Cabul em seis meses indica uma redução do terrorismo.O chefe do serviço secreto, Amrullah Saleh, lembrou que, no sábado, depois do atentado com carro-bomba em Cabul, "milhares de pessoas compareceram em comícios de campanha, desafiando o Taleban". "Nos outros atentados, capturamos todos os elementos que ofereceram apoio logístico aos suicidas e os entregamos às autoridades", disse Saleh. "Ontem (sábado) os taleban conseguiram matar gente inocente, mas não tirar a coragem do nosso povo. Eles pagarão por isso."O atentado suicida foi realizado diante do quartel-general conjunto das forças americanas, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e do Exército afegão, a área mais vigiada de Cabul. Matou 7 civis e feriu 90 pessoas, incluindo uma parlamentar, quatro soldados afegãos e outros quatro das forças internacionais. O fato de um carro-bomba ter chegado até o local, passando por dois bloqueios com soldados afegãos, levantou sérias dúvidas sobre as condições de segurança para a realização das eleições, que os taleban prometeram perturbar. O clima é tenso. Muitos estrangeiros que trabalham em agências da ONU e ONGs não relacionadas com as eleições, empresas e embaixadas estão deixando o país para voltar depois das eleições. Wardak disse que em 10 dos 365 distritos eleitorais do país não haverá eleições, porque não há presença do Exército nem da polícia afegã - são áreas controladas pelo Taleban. Segundo ele, as Forças Armadas não tentaram recuperar o controle dessas áreas para não causar mortes de civis. NEGOCIAÇÕESO ministro reconheceu que as forças de segurança afegãs não são suficientes, considerando a população do país (24 milhões). Os 101 mil militares da Otan ajudarão no esquema de segurança das eleições. O ministro acrescentou que há operações militares contra os taleban em 10% do território afegão, e elas serão suspensas na quinta-feira, para a eleição.No dia da votação, o trânsito de veículos estará proibido. O ministro do Interior disse que foram planejadas medidas para impedir que haja distúrbios depois da eleição. Ele admitiu que a realização de um segundo turno - seis semanas depois do primeiro - "complicará a situação".O chefe do serviço secreto revelou que há negociações com diversos líderes taleban locais para tentar convencê-los a não atacar seções eleitorais. Ele disse ter observado, no início das conversações, que "não há coesão de comando" entre os taleban.Há vários dias, militantes taleban, sobretudo na Província de Kandahar, seu reduto no sul do país, têm feito advertências aos eleitores para que não compareçam às urnas na quinta-feira.Segundo a agência Associated Press, um panfleto assinado por Ghulam Haidar, comandante operacional em Kandahar, afixado nas paredes de mesquitas da cidade, diz: "Vocês não devem participar das eleições porque podem ser vítimas de nossas operações."

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