Erin Schaff/The New York Times
Erin Schaff/The New York Times

Governo americano começa a tratar terrorismo supremacista como ameaça primária à segurança

Departamento de Segurança Interna começa a discutir o assunto de forma mais enfática depois de anos de insistência de setores da população

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2019 | 18h15

WASHINGTON - O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos está começando a tratar o terrorismo supremacista branco como uma ameaça primária à segurança, rompendo uma década de pouca atenção dada ao assunto. A mudança vem após atiradores em massa da Nova Zelândia até o Texas tirarem as vidas de quase 100 pessoas nos últimos seis meses. 

Em um documento de estratégia pouco notado que foi publicado no mês passado para guiar as forças policias em ameças iminentes e em aparições públicas recentes de Kevin K. McAleenan, o secretário em exercício de Segurança Interna, o departamento está tentando projetar um novo cuidado com o nacionalismo branco violento, rebatendo as críticas de que a agência tem passado uma década diminuindo o problema. 

"Eu gostaria de aproveitar esta oportunidade para ser direto e claro abordando um grande problema do nosso tempo. Em nossa era moderna, a continuação do extremismo violento com base na raça, particularmente a supremacia branca violenta, é uma afronta abominável à nação", McAleenan disse em uma declaração no mês passado, descrevendo o nacionalismo branco como uma das ameaças mais perigosas dos EUA. 

Departamento mudou de posição 

A nova posição do departamento contrasta com a do presidente americano Donald Trump, que tem repetidamente tratado a supremacia branca como um movimento marginal insignificante. Mas além de palavras e documentos, muitos oficiais que tentam combater a ameaça pelo país se mantêm céticos que o peso total das forças policiais federais vai finalmente ser usado para dar ao terrorismo doméstico fanático a atenção que ele merece. 

Mike Sena, que administra um dos 79 "centros de fusão" de coleta de informação por todo o país, que são parcialmente financiados pelo Departamento de Segurança Interna, afirma que ele testemunhou a ascensão do discurso de ódio e do terrorismo supremacista branco na internet - e a relutância de algumas pessoas das forças policiais em perseguir essa ameaça. 

"Se é o Estado Islâmico, eles pulam na oportunidade e dizem 'eu consigo'", diz Sena, presidente da National Fusion Center Association. "Mas se não é, eles dizem 'o que eu tenho a ver com isso?'". 

Oficiais de polícias locais esperam que a admissão tardia do Departamento de Segurança Interna vá levar a agência a compartilhar informações mais ricas sobre a ameaça. Para Sena, essa movimentação do departamento é um bom sinal. "Isso é uma enorme afirmação do que nós temos tentado fazer nos últimos 18 anos", declara. 

A nova posição pública do departamento é uma ruptura com o ceticismo que esteve enraizado no governo federal por anos e que o presidente Trump tem expressado abertamente - mais proeminentemente depois da marcha supremacista branca fatal em Charlottesville, no Estado da Virgínia, e do tumulto mortal em duas mesquitas na Nova Zelândia (ele denunciou a supremacia branca depois do tiroteio em massa neste verão em El Paso, no Estado do Texas). 

Enquanto o Estado Islâmico e a Al Qaeda ainda podem inspirar o terrorismo que cresce no próprio país dos americanos, a "Estrutura estratégica para combater o terrorismo e a violência direcionada" afirma que a liderança na Segurança Interna tem que se adaptar à ascensão do terrorismo doméstico. O departamento irá investir em campanhas com mensagens de combate e se engajar no setor privado para combater a retórica de ódio na internet, de acordo com relatório. 

Em 2009, relatório causou polêmica 

Destacar o terrorismo doméstico é uma grande mudança para um Departamento de Segurança Interna que foi acusado de tratar a ameaça de forma moderada demais depois das consequências de ter lançado um relatório em 2009 que alertava que o deslocamento econômico e a eleição de um presidente negro poderiam inflamar o extremismo de direita e identificava pessoal recém-dispensado das forças armadas como potenciais recrutas. A reação política foi feroz e o relatório foi retirado. 

De acordo com Daryl Johnson, ex-analista sênior do departamento que escreveu o relatório de 2009, um reconhecimento anterior da ameaça do supremacismo branco poderia ter sido sentido em comunidades por todo o país. Ele afirma que uma decisão dessas pelo departamento poderia ter levado a treinamentos de departamentos locais de polícia para investigar indicadores de ameaças potenciais, operações secretas focadas no movimento nacionalista branco e investimento adicional em organizações que tentam se comunicar com quem mostra sinais de que quer cometer atos violentos. 

Em vez disso, "a repercussão negativa do meu relatório criou um efeito arrepiante no governo em todos os níveis", disee Johnson fala. "Todo mundo estava meio que com medo ou hesitante ou nem mesmo queria olhar para o problema". 

Mesmo enquanto o perigo mudava de células terroristas nascidas no exterior para aqueles inspirados por propaganda racista na internet, o departamento cortou recursos de programas que ex-oficiais dizem que foram encarregados de analisar a ameaça. 

O papel do Departamento de Segurança Interna 

O Departamento de Segurança Interna não assume a liderança nas investigações de terrorismo. O papel da agência é analisar dados, informar agências de polícia locais de potenciais ameaças e conceder doações às polícias locais para combater o terrorismo. Os centros de fusão são essenciais para o compartilhamento de informações.

Sob a administração atual, ex e atuais oficiais de Segurança Interna têm expressado preocupação de que a agência formada para combater terrorismo na esteira dos ataques de 11 de setembro de 2001 tem sido colocada somente em posição de reforçar a agenda restritiva de imigração do presidente Trump. 

"Você pensaria que o Departamento de Segurança Interna é realmente só o departamento da fronteira sudoeste", diz Janet Napolitano, que foi secretária de Segurança Interna durante a administração de Barack Obama. "As responsabilidades são muito mais amplas que isso e elas incluem o terrorismo estrangeiro e agora também o terrorismo doméstico". 

Líderes atuais do departamento reconhecem que um foco exclusivo em imigração não vai manter o país seguro. "A segurança da fronteira não pode parar a violência que se origina dentro da América", o novo relatório de missão do departamento diz. 

A ameaça de terorismo doméstico ficou mais clara à medida que a capacidade da Segurança Interna de lidar com ela atrofiou. Christopher A. Wray, diretor do FBI, disse ao Congresso em julho que a agência prendeu tantos terroristas domésticos quanto terroristas estrangeiros neste ano e muitos deles eram supremacistas brancos. 

O relatório de missão do departamento também destaca ataques recentes cometidos por supremacistas brancos, incluindo tiroteios em massa em sinagogas em Pittsburgh, no Estado da Pensilvânia, e Poway, na Califórnia, além do massacre da mesquita de Christchurch na Nova Zelândia e o tiroteio fatal em um supermercado Walmart de El Paso. 

Como o departamento vai transformar discurso em ação? 

Ainda não está claro como o Departamento de Segurança Interna vai traduzir seu reconhecimento da ameaça em ação para combatê-la. Oficiais da agência disseram que irão liberar um plano de implementação nos próximos meses e McAleenan se comprometeu a divulgá-lo. Mas autoridades dizem que simplesmente identificar as ameaças em um relatório oficial de terrorismo era necessário - e vem com atraso. 

Depois que Janet Napolitano, secretária de Segurança Interna na época, revogou o relatório de 2009 sobre extremismo de direita, oficiais do governo Obama temiam legitimizar a visão dos supremacistas brancos com ainda mais atenção. No governo Trump, o escritório encarregado de pagar doações e coordenar departamentos de polícia local para prevenir ameaças secou. 

Esse escritório, que já trocou de nome múltiplas vezes, foi de um orçamento de mais de US$20 milhões, no governo Obama, para menos de US$3 milhões, de acordo com o Comitê de Apropriações da Câmara e ex-oficiais de Segurança Interna. Um oficial do departamento diz que o valor de US$20 milhões vinha majoritariamente de doações e outros fundos que não faziam parte do orçamento principal do programa. 

Um pedido de orçamento de meio do ano por McAleenan neste ano foi barrado por democratas que se preocuparam que a adminstração usasse os recursos extras para atingir muçulmanos. 

Daryl Johnson, autor do relatório de 2009, afirma que o novo documento da agência o deu um "vislumbre de esperança". "Antes tarde do que nunca, mas temos uma ameaça que está aí há dez anos e, se tivéssemos reconhecido isso quando meu relatório foi divulgado, estaríamos muito mais a frente em estratégias", ele diz. 

Além de claramente identificar o nacionalismo branco como uma ameaça, o departamento também alerta para a ascensão da "violência direcionada" por aqueles que não demonstram motivação clara ou ódio por um grupo particular de pessoas. 

O relatório destaca como postagens de internet cheias de ódio, incluindo aquelas que são parte de campanhas de desinformação de países estrangeiros, têm incitado atos violentos nos Estados Unidos. Oficiais dizem que eles esperam que o relatório estabeleça uma resolução em agências de polícia para investigar melhor pistas emitidas por centros de fusão, mesmo que essas pistas levem a situações que ainda não se encaixem na definição de causa provável ou que não se encaixem na definição tradicional de terrorismo. 

Reconhecer a existência do terrorismo doméstico é importante  

Chuck Wexler, diretor executivo do Police Executive Research Forum, que representa departamentos de polícia que estariam na ponta de recebimento das informações coletadas pelo Departamento de Segurança Interna, declara que denunciar o terrorismo doméstico meramente traz o departamento e seus centros de fusão à realidade atual. 

"O que evoluiu é um reconhecimento de que não importa se alguém é ideologicamente orientado ou está apenas alvejando pessoas. Nós precisamos saber quem eles são", Wexler disse. "O desafio em uma democracia é a Primeira Emenda. As pessoas dizem coisas na internet". A Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos protege alguns direitos dos cidadãos americanos, entre eles a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa. 

Autoridades policiais disseram que o Departamento de Segurança Interna agora precisa dar aos departamentos de polícia mais alcance com doações que frequentemente são vistas como restritas para combater o terrorismo que nasce dentro do país. 

Algumas autoridades policias pediram investimento federal adicional em pesquisas para identificar sinais de potenciais agressores e organizações que tentam contato com aqueles que podem ter visões de ódio - tarefa nada fácil para investigadores que têm que equilibrar os direitos da Primeira Emenda com segurança pública. 

Enquanto autoridades continuam céticas que o governo Trump vá investir verdadeiramente no combate à nova ameaça, Mike Sena, administrador de um centro de fusão, está otimista. "Isso nos dá a capacidade de analisar as ameaças em toda a América", ele afirma. "Não é apenas encontrar o terrorista com as bombas, o cara defendendo a retórica da Al-Qaeda." / NYT

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