Governo americano flerta com Cuba e corteja continente

Desde que Fidel Castro deixou o poder, no ano passado, o prolongado impasse entre Cuba e os EUA adquiriu um ritmo lento, com delicados passos de Havana, de um lado, e limitados avanços da parte de Washington, do outro. Em 2006, o presidente cubano, Raúl Castro, indicou que estava interessado em modificar as relações de Cuba com os EUA e eliminou algumas restrições para que os cubanos da ilha pudessem se hospedar em hotéis reservados a turistas, comprar celulares e torradeiras e cultivar terras do Estado. Alguns cubano-americanos aplaudiram as medidas que consideraram sinais, embora tardios, de uma nova era pós-Fidel. Outros, entretanto, acharam as medidas superficiais e, um ano mais tarde, ficou claro que, em grande parte, estavam certos. Essas mudanças não se mostraram precursoras de um importante salto para a liberdade. Os prisioneiros políticos continuam nas prisões, os celulares são sempre um artigo de luxo reservado a uns poucos, e os cubanos não têm maior liberdade de expressão. Agora, é a vez de Washington tomar a iniciativa. No dia 13, o presidente Barack Obama cumpriu uma promessa de campanha abolindo restrições para que os cubano-americanos possam visitam parentes na ilha e enviar remessas de dinheiro. Obama disse também que fará o possível para que as empresas americanas ampliem o serviço de telefonia celular em Cuba, permitindo que os cubanos aos quais Raúl Castro permitiu a posse de aparelhos sem fio possam utilizá-los de fato. Mais uma vez, as reações divergem; alguns cubanos acham que as medidas são insuficientes. Outros afirmam que a eliminação das restrições representa uma concessão excessiva aos irmãos Castro, sem que eles deem algo em troca. Depois do anúncio da nova política em relação a Cuba, o presidente fez sua primeira visita ao México, onde o presidente Felipe Calderón pediu o fim do embargo à ilha. Da Cidade do México, Obama foi a Trinidad e Tobago para se reunir com os líderes latino-americanos na 5ª Cúpula das Américas. Todos os países das Américas participaram da conferência, com exceção de Cuba, que foi excluída porque seu líder não foi eleito democraticamente. Mas, embora não estivesse fisicamente presente, Cuba esteve claramente no centro das atenções. Analistas da política americana para a América Latina disseram que o anúncio das modestas mudanças da política em relação a Cuba, pouco antes da conferência, foi um esforço para reduzir as tensões na reunião e enviar um sinal mais coerente ao hemisfério. Obama não pretende levantar o embargo antes que Cuba comece a corrigir suas graves violações dos direitos humanos e, no México, afirmou que o próximo passo cabe agora a Havana. Raúl respondeu que Cuba está disposta a discutir "tudo" com os EUA, desde que no mesmo pé de igualdade. E assim a dança continua. Mas, dessa vez, sob muitos aspectos, Cuba já não representa uma ameaça. Washington tem novas prioridades para o hemisfério, como as relações com o belicoso Chávez e o fortalecimento dos vínculos com o Brasil, que está se tornando uma potência política e econômica. Administrar as expectativas a respeito de sua política com Cuba permite ao presidente americano ganhar terreno e uma vantagem estratégica para tratar destas e de outras questões mais prementes no hemisfério. Em outras palavras, o maior problema que Cuba representa para os EUA agora é o fato de que ainda constitui um problema.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.