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Governo americano libera arquivos secretos sobre assassinato de JFK 

Arquivos Nacionais também emitiram um plano para digitalizar toda a coleção de registros do assassinato do democrata

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2021 | 22h25
Atualizado 15 de dezembro de 2021 | 22h55

WASHINGTON - A administração do presidente Joe Biden liberou nesta quarta-feira, 15, uma série de arquivos secretos do governo  relacionados ao assassinato do presidente John F. Kennedy, o último marco em uma campanha de décadas para que todos os documentos sobre a morte prematura do líder democrata morto em 1963 fossem divulgados.

O lote de arquivos recém-lançado, publicado pela Arquivos Nacionais e Administração de Documentos (Nara, por sua sigla em inglês), inclui 1.491 documentos, 958 dos quais são da CIA. Isso é menos de 10% dos 15.834 documentos que permaneceram parcial ou em sua maioria sigilosos até agora.

Na tarde de quarta-feira, Jefferson Morley, editor do JFKFacts.org e ex-redator do Washington Post, disse que ainda não havia encontrado nada de extraordinário, mas ainda estava examinando centenas de documentos. Uma decisão importante, observou ele, foi que os Arquivos Nacionais também emitiram um plano para digitalizar toda a coleção de registros do assassinato de JFK.

“Em termos de entendimento público, isso é provavelmente mais importante do que qualquer documento divulgado hoje”, tuitou Morley, que também disse ser improvável que essa divulgação contenha algo extraordinário relacionado ao assassinato.

Alguns dos arquivos chamam atenção pelo assunto. Um, intitulado “Conspiração para Assassinar Castro”, delineou vários planos que a CIA explorou para remover o então presidente cubano Fidel Castro. Outros parecem mais mundanos, como um memorando de 1961 sobre um informante do FBI em Miami que recebia US$ 38 por semana, mais US$ 2,50 para despesas, para participar de reuniões de grupos pró e anti-Castro.

Entre os arquivos JFK mais significativos não divulgados nesta quarta-feira, observou Morley, estão gravações de entrevistas que o historiador William Manchester conduziu com Jacqueline Kennedy, a mulher do presidente, e seu irmão Robert F. Kennedy, em 1964 e 1965.

“Nem Jackie nem RFK acreditaram na teoria oficial de que Kennedy foi morto por um homem sozinho, sem motivo”, disse Morley. “Eles disseram que JFK, em particular, foi morto por seus inimigos domésticos. É isso que está nessas fitas e por isso  são tão sensíveis.”

A Comissão Warren concluiu que Lee Harvey Oswald agiu sozinho quando matou o presidente em 22 de novembro de 1963, e não houve conspiração.

Todos os arquivos JFK restantes deveriam ter sido liberados originalmente em outubro. O presidente Biden adiou o lançamento planejado, citando atrasos causados ​​pela pandemia de coronavírus, e anunciou que eles seriam divulgados em dois lotes - um, nesta quarta-feira, e outro, em 15 de dezembro de 2022, após passar por uma "revisão intensiva de um ano".

“O adiamento temporário contínuo é necessário para proteger contra danos identificáveis ​​à defesa militar, operações de inteligência, aplicação da lei ou a conduta de relações exteriores que sejam de tal gravidade que superem o interesse público na divulgação imediata”, disse Biden então.

A decisão irritou os pesquisadores de JFK, que acusaram o governo Biden de usar a pandemia como desculpa para o governo barrar o público mais uma vez, observando que já se passaram quase 60 anos desde que Kennedy foi assassinado.

“Eles estão dizendo muito claramente que não pretendem obedecer à lei ... é um estratagema”, disse Morley, que em 2003 processou a CIA por registros relacionados ao assassinato de Kennedy.

De acordo com a Lei de Coleta de Registros de Assassinato de John F. Kennedy de 1992, todos os registros de assassinato deveriam ter sido divulgados publicamente dentro de 25 anos - ou até outubro de 2017 - mas adiamentos eram permitidos em casos em que as preocupações com a segurança nacional superassem o interesse público na divulgação.

O presidente Donald Trump, em 2017, anunciou que planejava divulgar publicamente os arquivos JFK restantes, apenas para atrasar a liberação de alguns dos arquivos por razões de segurança nacional, estabelecendo um novo prazo de 26 de outubro de 2021. Em 2018, Trump acabou autorizando a divulgação de 19.045 documentos.

Em outubro, alguns membros do Congresso escreveram a Biden instando-o a liberar totalmente todos os arquivos JFK, incluindo 520 documentos que permaneceram ocultos do público e 15.834 documentos que haviam sido divulgados anteriormente, mas foram parcialmente ou, em sua maioria, reescritos.

Teorias 

O assassinato de Kennedy provocou o surgimento de várias teorias da conspiração, que não aceitam o veredicto oficial de que Oswald trabalhava sozinho quando atirou em Kennedy enquanto o jovem presidente desfilava pelas ruas de Dallas, Texas, em uma limusine conversível.

Alguns acreditam que Oswald, simpatizante do comunismo, foi usado por Cuba ou pela União Soviética. Outros acreditam que ativistas anticubanos, possivelmente com o apoio da inteligência americana ou do FBI, mataram Kennedy. Há também os que afirmam que os adversários políticos de Kennedy podem estar por trás do assassinato.

Philip Shenon, um especialista sobre o dossiê do assassinato de Kennedy, escreveu em um artigo publicado no site americano Politico nesta quarta-feira que há provavelmente documentos que nunca serão divulgados por razões de segurança.

"Enquanto o governo continuar a manter alguns documentos ocultos, isso apenas promoverá ainda mais a ideia de que as conspirações sinistras na morte de Kennedy têm base em fatos", alertou.

"Hoje, a QAnon, que o FBI considera uma ameaça do terrorismo nacional, adotou as teorias da conspiração de JFK", acrescentou Shenon, referindo-se ao movimento conspiratório de amplo espectro dos EUA que ganhou popularidade nos últimos anos.

Filha embaixadora 

Ainda nesta quarta-feira, Biden nomeou Caroline Kennedy, única filha viva de JFK, embaixadora dos EUA na Austrália, dando um papel público à outrora reticente descendente desta dinastia política. Caroline, que precisará ter seu nome confirmado pelo Senado para assumir o cargo, serviu anteriormente como embaixadora do Japão durante o mandato de Barack Obama

A postulação, que era comentada há tempos, ocorre quase um ano depois de Biden chegar à Casa Branca, pois seus adversários republicanos atrasaram muitas de suas nomeações para cargos diplomáticos chave no Senado. 

Com 64 anos, a primeira filha de JFK tinha deixado de lado os convites para disputar a presidência, que ressoaram no Partido Democrata por décadas. Mas tornou-se uma ferrenha defensora de Obama nas eleições de 2008, descrevendo o futuro primeiro presidente negro - de quem Biden foi vice - como uma personalidade inspiradora, que a fazia lembrar de seu pai.

Austrália e Japão estão entre os aliados mais próximos dos EUA. Em setembro, Biden anunciou uma nova aliança tripartite com Austrália e Reino Unido, na qual os australianos estão prestes a receber submarinos de propulsão nuclear americanos, ao mesmo tempo em que as tensões aumentam com uma China em crescimento./THE WASHINGTON POST e AFP 

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