Zach Gibson/The New York Times
Zach Gibson/The New York Times

Governo americano processa bairro que não quer mesquita

Comitê de zoneamento de Bensalem, nos arredores de Filadélfia, na Pensilvânia, autorizou a construção de outras instituições de cunho religioso, mas criou empecilhos para a comunidade muçulmana que pediu autorização para construir local adequado para orar

Katie Shepherd / The New York Times, O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2016 | 13h58

WASHINGTON - Durante quase 10 meses, uma congregação muçulmana do subúrbio de Bensalem, nos arredores de Filadélfia, na Pensilvânia, pediu que as autoridades municipais permitissem a construção de uma mesquita, depois de financiar caros estudos de tráfego, esclarecer em inúmeras ocasiões as práticas religiosas dos muçulmanos, revisar inúmeras vezes os projetos para, depois de tudo, ouvir um não.

Então, em julho deste ano, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos se envolveu no caso, acusando o comitê de zoneamento do Bairro de Bensalem de violar as leis federais de uso de terrenos com finalidade religiosa ao negar o pedido da congregação depois de haver permitido a construção de outros prédios com finalidade religiosa na região.

"Só estávamos pedindo para construir nossa mesquita e gostaríamos de ser tratados como todas as outras pessoas", afirmou Imtiaz Chaudhry, médico e membro da congregação Bensalem Masjid.

À medida que a retórica anti-islâmica e a discriminação crescem neste ano de eleições, o Departamento de Justiça está se mostrando um forte aliado dos muçulmanos americanos. Vanita Gupta, que é diretora da divisão de direitos civis do departamento, afirmou que o terrorismo no exterior e nos EUA levaram a "um aumento nos incidentes xenofóbicos contra a comunidade islâmica", algo que não ocorria nessas proporções desde os ataques de 11 de setembro de 2001.

"Aqui no Departamento de Justiça, temos que ficar sempre atentos porque já vimos isso acontecer outra vez", afirmou.

As iniciativas do Departamento de Justiça em uma série de casos como o de Bensalem ocorrem em forte contraste ao ambiente político no qual o departamento opera. O candidato do Partido Republicano à presidência dos EUA, Donald Trump, que frequentemente denuncia o "islamismo radical", declarou que não permitiria a entrada de imigrantes islâmicos no país, além de passar dias discutindo publicamente com uma família muçulmana cujo filho morreu em combate enquanto servia ao exército dos EUA. É comum ouvir confusões e gritarias sobre o islamismo nos comícios de Trump.

Contra a maré, o Executivo tenta tornar o país mais aberto aos muçulmanos. O Departamento de Justiça se envolveu em casos de uso de terreno para fins religiosos, como o de Bensalem, além de casos de discriminação religiosa em ambientes de trabalho e escolar e casos de crimes xenofóbicos, e tem contado com a ajuda de líderes comunitários para ensinar o público geral sobre o islamismo.

Na verdade, o departamento se envolve em casos de discriminação religiosa envolvendo muçulmanos desde os ataques de 11 de setembro. Porém, nos últimos nove meses desde os ataques terroristas de Nice, na França; de Paris; de San Bernardino, na Califórnia; de Bruxelas; e de Orlando, na Flórida, a tensão não para de crescer, de acordo com as autoridades, e as iniciativas do Departamento de Justiça se tornaram mais frequentes.

Para o departamento, o caso de Bensalem se destacou. No passado, o comitê de zoneamento do bairro autorizou a construção de uma igreja ortodoxa indiana, dois templos hinduístas e diversas escolas religiosas, além de outras instituições de cunho religioso.

Porém, quando a congregação Bensalem Masjid pediu o mesmo tipo de liberação, não recebeu autorização. O pedido da congregação foi oficialmente negado porque os membros do comitê de zoneamento acreditavam que a mesquita deveria pedir para que a propriedade recebesse oficialmente um novo tipo de zoneamento - um processo longo e complicado que outros grupos religiosos não tiveram de enfrentar. Antes da resposta final, os membros do comitê exigiram estudos de tráfego e um número maior de vagas de estacionamento que o originalmente planejado pela congregação. A queixa oficial contra o bairro afirma que essas preocupações na verdade não passavam de uma forma velada de discriminação.

"Eles foram examinados de forma muito mais rigorosa. Então o pedido foi negado, e negado por uma razão que não impediu a criação de todos os outros espaços religiosos do bairro", de acordo com Roman Storzer, advogado que representa a Bensalem Masjid. 

Os membros do comitê de zoneamento afirmam que negaram o pedido porque a congregação não atendeu às exigências legais que a qualificariam ao relaxamento do zoneamento urbano. "Para nós do comitê, havia cinco exigências que a lei espera de quem faz o pedido", afirmou Albert Champion, um dos membros do comitê, durante a reunião na qual o pedido foi indeferido, de acordo com as transcrições. "Não acredito que eles tenham comprovado legalmente" que atenderam às exigências.

Nos últimos meses, as acusações de que decisões regulatórias são utilizadas para acobertar a discriminação religiosa tornaram-se comuns. Diversas mesquitas na região norte da Virgínia relataram que outros pedidos de construção foram negados.

Na mesa redonda realizada no Departamento de Justiça, cristãos, judeus e membros de outras religiões afirmaram temer que a discriminação contra os muçulmanos possa levar à discriminação contra outras religiões, afirmou Vanita Gupta. "Quando existem ataques contra um grupo, eles podem se unir. Os ataques contra uma religião são ataques contra todos nós", afirmou Vanita.

De fato, o Departamento de Justiça investigou violações de direito de uso de terreno envolvendo igrejas cristãs, sinagogas, templos budistas, mesquitas e templos hinduístas desde 2010. Em 84% dos casos abertos pelo departamento envolvendo outras religiões, os governos locais concordaram com soluções extrajudiciais. Porém, nos casos envolvendo mesquitas e escolas islâmicas, apenas 20% dos casos foram resolvidos sem que o departamento precisasse abrir um processo.

A incapacidade de construir um local de orações impede que a comunidade Bensalem Masjid pratique livremente o islamismo, de acordo Chaudhry, membro da congregação. Muitos oram em um espaço alugado às sextas-feiras, mas o prédio que ocupam não conta com muitas das marcas registradas de uma mesquita que tornam a oração sagrada para os muçulmanos. O prédio não está voltado para Meca, não tem domo, nem minarete - que são símbolos religiosos importantes - e não há espaço apropriado para lavar as mãos, os pés e a cabeça, como exigido pelo Corão.

"Se alguém entra em uma sinagoga, igreja ou mesquita que é construída da forma correta, a experiência espiritual é sentida pelo simples fato de estar lá. A sensação não é a mesma quando estamos em uma sala simples que foi rapidamente adaptada para que as pessoas pudessem rezar lá dentro", afirmou Chaudhry, que vive em Bensalem há mais de 25 anos.

Ele afirmou que a congregação muçulmana do bairro só estava fazendo valer seu direito de orar. "Ter uma mesquita ali é como Rosa Parks se sentar na frente no ônibus, mas eles querem nos colocar na parte de trás."

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