Governo argentino processa 'Clarín' e 'La Nación'

Segundo a denúncia, os principais jornais do país teriam cometido crimes de lesa humanidade na compra da Papel Prensa durante a ditadura

AFP e EFE, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2010 | 00h00

BUENOS AIRES

O governo argentino acusou formalmente ontem os diretores dos dois principais grupos jornais do, Clarín e La Nación, por crimes de lesa humanidade envolvendo a compra da Papel Prensa durante a ditadura militar, informou a secretaria de Direitos Humanos. A Papel Prensa é a única produtora de papel para jornal na Argentina.

O Clarín e o La Nación negam a acusação e denunciam uma "perseguição empresarial" por parte do Poder Executivo.

"A secretaria de Direitos Humanos apresentou hoje (ontem) uma queixa pela relação entre a venda ilegal da empresa Papel Prensa e delitos de lesa humanidade cometidos durante a ditadura (1976-83)", destacou um comunicado do governo.

O governo quer que a Justiça abra um processo contra Ernestina Herrera de Noble e Héctor Magnetto, respectivamente proprietária e diretor do Clarín, e contra Bartolomé Mitre, diretor do La Nación.

Além disso, pede que sejam processados Sergio José, Marcos e Hugo Fernando Peralta Ramos, ex-donos do jornal La Razón, adquirido pelo Clarín.

Na mesma ação, o governo

solicita que sejam interrogados os ex-ditadores Jorge Videla e Emilio Massera, integrantes da Junta Militar que governava a Argentina por ocasião da venda da Papel Prensa, e o ex-ministro da Economia José Martínez de Hoz.

A presidente Cristina Kirchner acusa o Clarín e La Nación de assumir o controle da Papel Prensa em conluio com a ditadura militar, em uma operação realizada em 1976.

Segundo o governo, a "aquisição fraudulenta" foi concretizada por meio de uma variedade de crimes de lesa humanidade - como tortura - cometidos contra o grupo Graiver, liderado pelo empresário David Graiver, morto em um estranho acidente aéreo em 1976.

Na ocasião, a ditadura militar acusava o grupo Graiver, controlador da Papel Prensa, de ter vínculos com o movimento armado peronista Montoneros.

O Clarín e o La Nación reagiram com dureza à denúncia apresentada ontem pelo governo. Eles disseram, em um comunicado conjunto, que o governo pretende avançar sobre os meios de comunicação que não se alinham com o discurso oficial.

"Pretender relacionar essa compra com um delito de lesa humanidade é uma aberração moral e jurídica, carente de qualquer sustentação factível", indica a nota, insistindo que "não houve na aquisição da Papel Prensa nenhum delito".

O grupo Clarín possui 49% da Papel Prensa e o La Nación, 22%. O Estado argentino é proprietário de 27,46% da empresa.

No início de setembro, a Justiça argentina suspendeu a intervenção na Papel Prensa, que vigorava desde março a pedido do governo. A nova ofensiva do governo ocorreu três semanas após a apresentação do relatório kichnerista "Papel Prensa, a verdade", no qual disse que os proprietários da empresa a venderam depois de ter sido torturados pelos militares.

A presidente já apresentou ao Congresso um projeto que declara de "interesse público" a produção e distribuição de papel para jornais na Argentina. /

PARA ENTENDER

O governo argentino assegura que, após a morte do empresário David Graiver, em um acidente aéreo em agosto de 1976, a viúva Lidia Papaleo vendeu as ações da empresa Papel Prensa a Clarín, La Nación e La Razón (acionista até 2000), depois de ter sido torturada. Mas a operação de venda ocorreu em novembro de 1976 e somente cinco meses depois Papaleo foi sequestrada pela ditadura, torturada e condenada a 5 anos de prisão por cumplicidade do Grupo Graiver com a guerrilha. Muitos membros da família Graiver asseguram que a venda foi voluntária.

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