Governo argentino tenta acalmar oposição

O governo e os governadores do Partido Justicialista (mais conhecido como "Peronista"), da oposição, se reunirão nesta terça-feira para negociar a retomada do diálogo. A oposição ameaça cortar as conversações sobre o apoio às reformas econômicas caso o governo não pague os US$ 225 milhões que deve às províncias. As províncias precisam destas verbas, que seriam destinadas a programas de assistência social, como forma de conter a expansão dos piquetes nas estradas, realizados por desempregados que pedem trabalho e comida. Em uma ofensiva coordenada contra o governo, no Senado, os peronistas se mobilizam para revogar nas próximas semanas o aumento de 25% no preço do óleo diesel, implementado pelo ministro Cavallo dias atrás. Na semana passada, a fraqueza do governo, que anunciou rapidamente que cederia à oposição, preocupou os mercados, que reagiram elevando a taxa de risco do país para mais de 1.000 pontos. Nesta segunda à tarde, o governo também se preparava para anunciar a queda de 5% na arrecadação tributária de junho em relação ao mesmo mês do ano passado. Polêmica Nos últimos dias, aumentou a troca de acusações entre Cavallo e diversos economistas. Em Washington, o economista do BID Guillermo Calvo afirmou que os mercados, principalmente em Wall Street, "estão cansados dos insultos disparados pelo ministro". Calvo afirmou que descarta um default (moratória), mas explicou que, "quando alguém argumenta alguma coisa para Cavallo, ele responde com um insulto, e isso é algo que não estimula aqueles que pretendem investir na Argentina". Em Buenos Aires, o economista Jorge Ávila foi chamado de "traidor da pátria" pelo ministro. Avila respondeu que Cavallo "está em claro declínio" e "transtornado". Ele também sustentou que o ministro "possui pouco prestígio internacional" e que somente permanece "porque não tem substituto". Cavallo se afastará por alguns dias da polêmica, já que começará nesta terça-feira mais um giro pela Europa. Na quarta-feira, o ministro chegará à Alemanha, onde se reunirá com empresários e o ministro da Economia alemão, Werner Müller. Entre quinta-feira e sábado estará na Itália, onde se encontrará com o presidente italiano, Azeglio Ciampi, e banqueiros e empresários italianos, entre os quais o presidente da Fiat, Gianni Agnelli, com quem terá uma entrevista. Cavallo analisará com investidores europeus a realização de uma megatroca de bônus em euros. Ele pretende definir esta nova megatroca daqui a 90 dias. A Argentina possui o equivalente a US$ 15 bilhões de títulos em euros. Na véspera da partida, Cavallo foi mais uma vez respaldado pelo presidente De la Rúa, que agradeceu ao ministro a gestão que está realizando na economia do país. Pessimismo O pessimismo continua imperando entre os empresários. Segundo uma pesquisa da Câmara Argentina de Comércio, 85% dos comerciantes calcula que o nível de suas vendas não aumentará ao longo de todo o terceiro trimestre deste ano. Para 50,7% dos pesquisados o nível das vendas permanecerá igual, mas 34,2% prevêem como inevitável uma queda na atividade comercial. Segundo a pesquisa da CAC, 56% dos entrevistados acusam a "excessiva pressão tributária" como a responsável pela crise do setor. Entre os consumidores argentinos o panorama tampouco é otimista. A Fundação Mercado sustenta que em junho - apesar das diversas medidas do governo para reativar a economia, como a megatroca de bônus e os planos pró-competitivos - o índice de confiança dos consumidores registrou uma levíssima alta, passando de 15,16% para 15,20%.

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