Washington Alves/Reuters
Washington Alves/Reuters

Algemados durante voo, 30 brasileiros deportados dos EUA chegam a MG

Segundo Itamaraty, ação tem como objetivo reduzir o tempo de permanência dos brasileiros em centros de detenção americanos; passageiros desembarcaram na tarde desta sexta-feira

Aline Reskalla / Especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2021 | 16h46
Atualizado 21 de maio de 2021 | 21h49

BELO HORIZONTE - O sonho do mineiro Régis Paulo Pacheco de buscar uma vida melhor nos Estados Unidos durou apenas 75 dias. Na tarde desta sexta-feira, 21, ele desembarcou no aeroporto de Confins, na região metropolitana de Belo Horizonte, junto com mais 29 brasileiros deportados pelo governo americano. Todos eles, que estavam detidos após entrarem no país de forma ilegal, viajaram com mãos e pés acorrentados por determinação das autoridades americanas. A retomada dos voos foi revelada pelo Estadão no domingo, 16.

“É um sonho que ainda pretendo realizar um dia”, disse Pacheco ao Estadão, visivelmente abatido, logo após desembarcar. Mesmo viajando algemado, o mineiro de São João do Manteninha, a 500 km de Belo Horizonte, não reclama do tratamento que recebeu da imigração. "Foram muito educados”, diz. Ele trabalhava em uma fábrica de roupas íntimas em Minas antes de se arriscar na fronteira do México.

A jornada do carpinteiro e pedreiro Raulisson, de 44 anos, foi bem mais longa. E sofrida. Ele viveu ilegalmente 17 anos nos Estados Unidos até ser preso há sete meses, quando morava na rua. “Eu trabalhava na construção civil em Everest (no Estado do Kansas) e sofri um acidente. Tive traumatismo craniano, várias fraturas e fiquei sem condições de trabalhar. Tive que ir morar na rua. Há sete meses, fui preso”, conta o brasileiro nascido em Belo Oriente, a 253 km da capital mineira.

Com lágrimas nos olhos, ele parecia sem rumo ao desembarcar em Confins. “Eu estava em processo de legalização nos Estados Unidos quando fui preso. Quero tentar seguir com isso”, sonha o carpinteiro. Logo após desembarcar, ele já perguntava onde poderia comprar passagem de ônibus para Belo Oriente. O alívio para tanto sofrimento seria reencontrar os pais e o filho.

Nem Raulisson nem Pacheco foram vacinados contra a covid-19 pelo governo americano, diferentemente de outros deportados. ¨Não sei qual foi o critério”, diz Pacheco.

Os dois são nascidos em cidades que ficam no Vale do Rio Doce, próximo de Governador Valadares, conhecida nacionalmente por ser um centro de ação dos coiotes, criminosos que chegam a cobrar mais de R$ 20 mil para viabilizar a travessia ilegal para os Estados Unidos.

O cabeleireiro Sueverson Guimarães, de 22 anos, pagaria R$ 23 mil, mas, como foi preso ao cruzar a fronteira, não precisou desembolsar o valor. Ele ficou 91 dias detido e não hesita em dizer: “Semana que vem estou indo de novo. No Brasil, não tem condições de ficar”. Guimarães é de Vale do Paraíso, em Rondônia. No voo com ele, a conterrânea Adailsa dos Santos, de 24 anos, criticou o tratamento recebido pelas autoridades migratórias. “Fiquei 25 dias presa e fui cruelmente maltratada. Não entendi o porquê. Só queria trabalhar”, lamenta.

Dos 30 brasileiros deportados -- o primeiro voo desse tipo sob a administração de Joe Biden --, a maioria é do leste mineiro, mas havia pessoas do Espírito Santo, de Goiânia e de Rondônia.

Inicialmente, o governo brasileiro chegou a divulgar que 106 brasileiros presos nos EUA embarcariam de volta ao Brasil. Procurado pelo Estadão para explicar a diferença nos números, o Itamaraty informou, em nota, que “a organização do voo é de responsabilidade do governo norte-americano”.

Segundo informações das autoridades migratórias americanas, alguns deportados obtiveram judicialmente a suspensão da ordem de deportação e outros teriam sido submetidos, nas instalações de detenção onde se encontravam, a testes de antígeno para detecção de covid, em vez dos testes RT-PCR exigidos pela legislação brasileira para ingresso em território nacional, diz o texto. 

Um passageiro deportado que não quis se identificar disse que 18 pessoas foram retiradas do voo em Luisiana, de onde o avião partiu.

Para Lembrar: Um legado de Donald Trump 

Os voos com brasileiros deportados tornaram-se frequentes no governo de Donald Trump, como marca de uma contestada política e de uma retórica anti-imigração. Os aviões decolavam do Texas e da Flórida com a anuência do governo brasileiro. Na chegada, era comum ouvir reclamações de maus-tratos e falta de informações. Joe Biden foi eleito com a promessa de humanizar o tratamento, mas ainda não conseguiu resolver o problema. 

Além dos voos fretados, durante o seu mandato, Trump também incluiu os brasileiros no protocolo conhecido como “Fique no México”, que remetia ao país vizinho automaticamente aqueles estrangeiros sem documentos apreendidos pelo serviço de fronteira, para que esperassem fora do país pela análise dos pedidos de asilo. Antes, os brasileiros aguardavam em solo americano pela decisão dos tribunais de imigração. 

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