Governo brasileiro faz pacto de silêncio sobre Argentina

As medidas anunciadas pelo presidente provisório da Argentina, Adolfo Rodríguez Saá, são, na avaliação do governo brasileiro, um fator adicional de instabilidade num cenário já bastante complicado. A primeira reação da equipe econômica, assim que foi anunciada a suspensão do pagamento da dívida externa e a introdução de um terceira moeda naquele país, foi manter um pacto de silêncio para evitar declarações precipitadas. No entanto, nos bastidores do governo, o clima era de preocupação e de críticas.Tanto no Banco Central quanto no Ministério da Fazenda, o consenso era de que o presidente interino tem poucas chances de realizar, com sucesso, uma negociação com os credores capaz de trazer, mesmo que temporariamente, um alívio para a economia argentina. Falta à equipe do governo transitório legitimidade suficiente para sentar à mesa com investidores e organismos internacionais."O governo é fraco. É difícil imaginar que o FMI (Fundo Monetário Internacional)e os credores vão fazer acordo com um governo que vai permanecer por apenas 90 dias. Fica difícil encontrar uma alternativa que possa ser executada agora", afirmou um alto integrante do governo. "Eles estão adiando as medidas relevantes", completou.Restrições - Segundo fontes do BC, o novo presidente argentino não tem muito o que fazer porque, como não foi eleito pela população, trabalha com restrições. "A situação é complicada. Não há como introduzir mudanças profundas que imponham, mais uma vez, custos elevados para a população", disse a fonte, ressaltando que o melhor seria que houvesse eleições presidenciais o mais rápido possível. Os três meses que ainda faltam para escolha do sucessor só prolongam a agonia dos argentinos. A proposta que será enviada ao parlamento pelo presidente Rodríguez Saá para criação de uma terceira moeda é vista pelo governo brasileiro como uma preparação para a desvalorização. O problema é que o caminho, da forma como está sendo trilhado, é considerado bastante perigoso. Isso porque entre as medidas anunciadas, estão algumas altamente expansionistas, que prevêem aumento de gastos públicos para geração de emprego. "O risco de condenar a nova moeda é muito forte porque o de aumento de gastos tem impacto forte na inflação", disse a fonte do governo.A torcida do governo brasileiro é para que a Argentina encontre saída para o dilema da conversibilidade sem que seja necessária a dolarização da economia, que é vista como a opção mais desastrosa. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, assim como o presidente do BC, Armínio Fraga, já deixaram claro que a dolarização na Argentina inviabilizaria de vez o futuro do Mercosul. "Dando certo, a idéia de se criar bônus, que funcionam como uma terceira moeda, ajudam no processo de desvalorização do peso", disse a fonte do BC.Silêncio - O silêncio dos intregrantes do governo hoje foi justificado para evitar declarações atrapalhadas que pudessem gerar algum de tipo de atrito com o novo governo. Nem o Palácio do Planalto e nem o Itamaraty se manisfetaram oficialmente sobre a moratáoria da Argentina. O presidente Fernando Henrique Cardoso, que passa o feriado do Natal numa fazenda no Pantanal, preferiu se manter afastado nesse primeiro momento e não falou sobre o assunto.Leia o especial

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