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Bolsonaro: entre derrota com Biden e vitória com Trump

Sem Trump e sem os Estados Unidos, o que sobraria para Bolsonaro no cenário internacional, além de Polônia e Hungria, ambos secundários e tão desacreditados quanto o Brasil desde janeiro de 2019?

Eliane Cantanhêde*, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 07h27

Se confirmadas as previsões de vitória do democrata Joe Biden, não sobraria pedra sobre pedra da política externa do presidente Jair Bolsonaro, que usa até a vacina contra a covid para atacar a China, chicoteou os parceiros do Brasil na Europa, gerou desconfianças inúteis no mundo árabe e apostou suas fichas numa suposta “amizade” com o republicano Donald Trump. A vitória de Biden, porém, começou a balançar já no início da apuração na Flórida.

Sem Trump e sem os Estados Unidos, o que sobraria para Bolsonaro no cenário internacional, além de Polônia e Hungria, ambos secundários e tão desacreditados quanto o Brasil desde janeiro de 2019? Logo, a derrota de Trump seria uma derrota de Bolsonaro, assim como sua vitória será também de Bolsonaro e do projeto nacional-populista que os quatro países tentam exportar para o mundo.

Além de se aventurar num mal disfarçado alinhamento automático com Washington, Bolsonaro foi ainda mais incauto ao meter o Brasil num confronto de gigantes. O resultado é que o Brasil poderia perder os dois simultaneamente: a China, que já busca fornecedores e mercados alternativos, e os EUA, onde Biden se tornou competitivo e favorito na maioria das pesquisas.

A derrota de Trump para Biden teria reflexos também na política interna brasileira, porque deixaria Bolsonaro sem discurso e sem uma forte referência de extrema direita. Com o PT em baixa e o ex-presidente Lula caminhando para o ocaso político, é improvável que só “varrer o PT” seja suficiente para a reeleição em 2022. E quem ainda acredita em “nova política”, “combate à corrupção” e outros slogans jogados no lixo bolsonarista?

Um outro efeito na política interna seria que, quanto mais Bolsonaro caísse com Biden, mais o vice-presidente Hamilton Mourão subiria e mais a pauta ambiental entraria no centro das relações. Ficando Trump, nada muda nessa seara. Ele não dá a mínima para queimadas na Amazônia e Pantanal.

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Com Bolsonaro obrigado a reinventar sua política externa e em campanha ostensiva, pulando de palanque em palanque pelos rincões, quem assumiria o protagonismo nas relações com um eventual governo Biden, assim como já assumiu com as democracias europeias, seria Mourão.

Se o presidente não entende nada de política externa nem de geopolítica, o mesmo não se pode dizer do vice, que se aproximou dos embaixadores estrangeiros em Brasília, apoiou a vacina Coronavac e abordou a China com o devido pragmatismo.

Mantidos Trump e a aliança com o “Deus” norte-americano, porém, o “mito” Bolsonaro confirma, além da “caneta Bic”, que esfrega na cara do vice, a firme disposição de ser coadjuvante na liderança da nova extrema direita internacional. Perdem o mundo, os EUA e o Brasil, mas Bolsonaro ganha.

* É COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO  JORNAL E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

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