Governo Bush reforça incentivo à abstinência sexual

O presidente George W. Bush está decidido a ampliar a campanha da abstinência sexual até o matrimônio como método para evitar a gravidez não desejada, em uma atitude que, para muitos, é "mais ideológica do que científica" e revela a influência dos setores religiosos no governo dos EUA. Desde que assumiu o poder em janeiro, Bush deixou clara sua convicção de que o único método legítimo para evitar a gravidez não desejada e para combater a propagação das doenças sexuais é a abstinência. Com o apoio dos legisladores mais conservadores, o Congresso americano aprovou para o ano fiscal em curso um orçamento de US$ 20 milhões para a campanha a favor dos programas de abstinência, e se espera que a dotação desses programas no próximo ano seja de US$ 30 milhões. Segundo algumas fontes, o objetivo de Bush é conseguir um orçamento anual de US$ 135 milhões para a promoção da abstinência, dando-lhe paridade em relação aos programas de planejamento familiar, para os quais o governo não previu nenhum aumento. Há cerca de um mês, o governo entrou em sério atrito com o diretor do escritório federal de Saúde, David Satcher - um funcionário nomeado durante a administração Clinton -, que considerou a abstinência válida, mas não o único método de planejamento familiar . "Especialistas em saúde, de dentro e de fora do âmbito federal, estão cada dia mais preocupados com a posição do governo - que está mais baseada na ideologia do que na ciência - e temem que as mudanças possam afetar os recentes progressos na prevenção da gravidez entre adolescentes e a expansão das enfermidades sexualmente transmissíveis, com a aids", advertiu hoje o Washington Post. Segundo o jornal americano, que hoje dedica um artigo de capa ao tema, "a administração Bush está promovendo uma mudança fundamental na posição do governo federal sobre assuntos de saúde reprodutiva, desalentando o planejamento familiar e a contracepção enquanto promove agressivamente programas de ´apenas abstinência´". Numerosos grupos de inspiração religiosa estão recebendo importantes fundos para seus programas em defesa da abstinência. "Não estamos fazendo outra coisa senão apoiar o governo do presidente Bush", justificou Leslee Unruth, presidente da National Abstinence Clearinghouse. "Ele me disse pessoalmente que fará tudo o que puder para apoiar a educação em favor da abstinência (sexual) até o matrimônio", revelou Unruth. Dias atrás, a organizaçào Why Know, da cidade de Chattanooga, recebeu um subsídio de US$ 254.000 para seus programas pró-abstinência. "Os índices em baixa do número de mulheres grávidas estão diretamente relacionados ao início deste programa", afirmou a diretora da organização, Marcia Swearingen. "Já sei que não é científico, mas estamos muito animados", acrescentou. Por trás do incentivo à abstinência, o Washington Post destacou a presença do ministro da Saúde, Tommy Thompson, um fervoroso militante católico. Bush, por sua vez, viveu uma reviravolta espiritual em 1986, quando se tronou seguidor do pregador protestante Billy Graham e, em suas próprias palavras, "aceitei Cristo". A reconversão religiosa serviu de apoio a Bush para enfrentar a luta contra o álcool. Segundo o escritório federal de Sáude, a cada ano 12 milhões de americanos contraem alguma doença sexualmente transmissível. Além disso, entre 800.000 e 900.000 pessoas no país vivem com o vírus da aids, um terço das quais sem saber que estão infectadas. De acordo com os últimos dados - de 1996 -, ocorre 1,36 milhão de abortos por ano nos EUA.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.