Fernando Gabeira
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Governo chileno pede renúncia de chefe de polícia

Após violentas manifestações da semana passada, estudantes se reúnem hoje com Piñera e exigirão fim da repressão e transparência nas negociações

Fernando Gabeira, Enviado Especial a Santiago, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2011 | 00h00

O ministro do Interior do Chile, Rodrigo Hinzpeter, pediu ontem a renúncia do general Sergio Gajardo, chefe dos carabineiros (a polícia chilena). A decisão foi tomada depois que ele se recusou a investigar a responsabilidade da corporação na morte do adolescente Manuel Gutiérrez Reinoso, de 16 anos, durante os protestos da semana passada.    

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"Pedimos ao diretor-geral dos carabineiros, Eduardo Gordon, que solicite a renúncia de Gajardo", disse Hinzpeter. A morte de Reinoso, vítima de um tiro no peito na sexta-feira, abriu uma nova frente na crise que envolve o presidente Sebastián Piñera. Outros quatro suboficiais suspeitos também foram afastados e suas armas serão submetidas a perícia.

Ontem, os estudantes chilenos decidiram manter a mobilização, apesar do diálogo com Piñera, previsto para começar hoje. No encontro, eles levarão três reivindicações: transparência nas negociações, suspensão no Congresso de projetos sobre os quais eles não foram consultados e fim da repressão policial.

Depois de uma visita de duas horas à Universidade do Chile, ainda não é fácil entender como a educação tornou-se o maior problema político do país. O Chile, segundo os autores Marco Marcel e Carla Tokman, destinava 8,1% do PIB à educação. A maior parte dos recursos, 54 %, vinha do governo e 46% de famílias e de instituições privadas. É índice de país desenvolvido.

No orçamento de 2011, o governo anunciou um aumento de 7,8% nos gastos com educação, que atingem agora US$ 10 bilhões. Quase metade desse aumento foi para a reconstrução de escolas atingidas pelo terremoto de 2010 e outra parte substancial para a pré-escola. "Desde o início do ano, sentimos que os alunos estavam endividados, sem condições de pagar a universidade. Foi aí que nasceu o movimento", disse uma das líderes estudantis Magdalena Paredes.

Segundo ela, os universitários pagam uma taxa anual de US$ 3 mil e consideram que nem sempre o estudo é de qualidade. Para um dos maiores especialistas em educação do Chile, Mário Waissenbluth, da Fundação Educação 2020, o governo busca ampliar o investimento em escolas técnicas, uma das melhores saídas para distribuir renda.

Um dos pontos de convergência é a necessidade de fiscalizar melhor as faculdades particulares, que distribuem diplomas indiscriminadamente. Na ocupação da Universidade do Chile - 70 estudantes dominam o prédio -, a estátua de seu fundador, Andrés Bello, foi ornada com bandeiras e cartazes e desenhos foram colocados na fachada. Os pontos de ônibus foram pintados com o nome de Reinoso, o jovem assassinado.

A Universidade do Chile fica a 200 metros do Palácio de La Moneda e, se quisessem mesmo dialogar, talvez pudessem fazê-lo gritando da janela. Os estudantes montaram uma pequena rádio na porta e, durante a manhã, oferecem café e biscoito. Dentro do prédio, há várias intervenções nos monumentos e uma área de reciclagem de cartazes. O pátio foi tornou-se um centro de logística para manifestações.

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