Governo chinês ainda vigia vila de ativista cego

'Estado' visita família do advogado que foi pivô de crise diplomática entre Pequim e Washington

CLÁUDIA TREVISAN, ENVIADA ESPECIAL / LINYI, CHINA, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h03

O ativista cego que provocou uma crise diplomática entre as duas maiores economias do mundo passou quase toda sua vida em uma típica casa de camponeses da China, na qual não há chuveiro e o banheiro é uma "casinha" com um buraco no chão. Foi nessa casa em Linyi, na Província de Shandong, que Chen Guangcheng passou 19 meses em prisão domiciliar até fugir e se abrigar na Embaixada dos EUA em Pequim em 26 de abril.

O Estado visitou há duas semanas a vila do ativista, que, pela primeira vez em mais de sete anos, está livre da vigilância de dezenas de capangas contratados pelo governo local. Esses guardas improvisados tinham a missão de impedir a entrada de estranhos na vila de 450 habitantes e criar uma barreira em torno da casa de Chen, que não podia ser ultrapassada nem por seus parentes.

O ativista vivia no local com a mulher, a filha e a mãe, Wang Jin Xiang, de 78 anos, que era acompanhada por quatro guardas cada vez que deixava a casa. "Eu não podia visitar meus outros filhos e netos e, se os encontrasse na rua, podia só cumprimentá-los. Conversar era proibido", lembrou Wang.

Ela havia conversado com o caçula de seus cinco filhos na noite anterior. O ativista telefonou de Nova York, onde está desde 19 de maio com a mulher e os dois filhos. "Espero que ele não volte para cá, porque ele sofreu muito nos últimos anos", afirmou a mãe.

Chen foi confinado pela primeira vez em sua casa em 2005, por seis meses. No ano seguinte, foi sentenciado a 4 anos e 3 meses de prisão sob a acusação de "perturbar o trânsito", em represália por sua atuação em defesa de milhares de mulheres submetidas a abortos e esterilizações forçados. Mesmo sem Chen na vila, os capangas continuaram a fazer a guarda no local, para acompanhar os passos da mulher dele, Yuan Weijing.

A segurança foi reforçada quando o ativista cumpriu a pena e voltou para casa, em setembro de 2010. Todas as entradas da vila eram vigiadas por grupos de quatro a oito guardas. Outros permaneciam nas esquinas que davam acesso à casa de Chen.

"Havia duas barreiras para se chegar à casa e, se levávamos comida para eles, tínhamos de entregar tudo aos guardas da esquina", disse o irmão mais velho do ativista, Chen Guangfu, de 55 anos. Também havia guardas no pátio interno da casa, onde a mãe de Chen cria galinhas.

A filha de 6 anos do ativista, Chen Kesi, era levada pelos capangas de carro para a escola todos os dias e trazida de volta depois das aulas. Sua mochila era revistada e ela não podia se encontrar com outras crianças fora do horário da escola.

As janelas dos quartos de Chen e de sua mãe foram cobertas do lado de fora por placas de ferro. Além de dificultar a fuga e impedir a entrada de luz, elas funcionavam como tortura psicológica, quando guardas batiam no ferro com pedras.

A vigilância torna ainda mais surpreendente a fuga de Chen. Antes de escapar, o ativista permaneceu durante dias em sua cama, dando aos guardas a impressão de que estava doente. Em 22 de abril, aproveitou segundos de ausência dos capangas para subir uma escada e pular o muro que leva à casa ao lado. Naquele dia, o vizinho havia viajado e levado com ele o cachorro que latia quando a reportagem do Estado subiu o muro para ver a estreita passagem em que Chen caiu.

De lá, ele pulou mais quatro muros e se escondeu até escurecer. O ativista caminhou durante toda a noite e, às 5 horas do dia 23, chegou a uma vila vizinha, onde parentes contrataram um táxi que o levaria ao ponto de encontro com He Peirong e Guo Yushan, ativistas que o conduziram a Pequim.

O aparato de segurança foi desmontado algumas semanas depois que Chen partiu para os EUA, mas quatro funcionários permanecem no local para vigiar a família Chen.

A câmera colocada na entrada principal da vila continua no lugar e alerta as autoridades quando um carro desconhecido passa por ela. Logo depois que a reportagem chegou, motoqueiros com ar intimidador passaram a circular no local. Nenhum dos camponeses abordados quis falar sobre Chen. "Não conheço", era a resposta padrão.

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