Yamil Lage/AFP
Yamil Lage/AFP

Governo colombiano e as Farc retomam processo de paz

Chefe da delegação do governo respondeu às críticas por parte de alguns setores políticos liderados pelo ex-presidente Álvaro Uribe

O Estado de S. Paulo

10 de dezembro de 2014 | 17h10

HAVANA - O governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) retomaram nesta quarta-feira, 10, o processo de paz com o reinício das negociações, o que representa a virada de página depois da crise provocada pelo sequestro do general Ruben Darío Alzate, que acarretou a suspensão dos diálogos.

A única menção à maior crise vivida pelo processo em dois anos veio do chefe negociador do governo, Humberto de la Calle, que afirmou que o reatamento dos diálogos "deixa patente que ficaram para trás os eventos das últimas semanas que geraram as dificuldades que o país conhece".

Em declaração lida perante os meios de comunicação, o chefe da delegação do governo respondeu às críticas ao processo de paz por parte de alguns setores políticos da Colômbia, liderados pelo ex-presidente Álvaro Uribe, que recentemente afirmou que o reatamento das conversas foi alcançado graças a concessões à guerrilha.

"Nada disto se baseou em concessões obscuras e inaceitáveis. O senador Uribe publicou supostos compromissos exigidos pelas Farc para reiniciar as conversas. Isto nem sequer foi colocado pelas Farc e, em todo caso, se tivesse sido, não teríamos aceitado", ressaltou De la Calle.

Para evitar especulações sobre o que se negocia na mesa de Havana, De la Calle reafirmou sua disposição a dialogar com outros partidos políticos da Colômbia e "dar informação detalhada", em reuniões que já manteve com vários partidos, mas às quais o Centro Democrático, liderado por Uribe, "se negou" a participar.

"Novamente temos que rejeitar informações falseadas, inverossímeis (...) cujo objetivo único é gerar obstáculos ao anseio de paz dos colombianos", lamentou.

O governo lembrou que no dia 16 viajará a Havana a quinta e última comitiva de vítimas que participará da mesa de negociação. Afirmou ainda que, um dia antes, receberá pela primeira vez um grupo de especialistas em questões de gênero.

"A mulher esteve no vórtice da vitimização, mas é ao mesmo tempo, a corrente de transmissão da reconciliação", destacou o chefe negociador do governo colombiano, que aborda neste momento com a guerrilha o ponto do roteiro sobre o ressarcimento das 6,5 milhões de vítimas do conflito armado.

Por sua parte, as Farc se recusaram completamente a referir-se à crise do processo de paz recém superada e "Pablo Catatumbo" (codinome de Jorge Torres Victoria) se limitou a ler uma reflexão sobre o direito humanitário em conflitos armados, na qual reiterou a "desproporção" de forças no terreno entre a insurgência e o exército.

O guerrilheiro indicou que é "incompatível com o bom senso" que as Farc sejam acusadas de usar artefatos explosivos artesanais contra as forças do Estado, enquanto estas "utilizam indiscriminadamente aviação ofensiva e bombas de uma tonelada e meia".

Nesse sentido, reiterou que a guerrilha "nunca" desenvolveu estratégias "de ataque generalizado contra a população civil".

O reatamento hoje das negociações representa a confirmação da vontade das partes de levar adiante esse processo, a tentativa de paz com as Farc que chegou mais longe, com acordos parciais em assuntos complicados como distribuição de terras, participação política e cultivos ilícitos e drogas.

Após a suspensão dos diálogos poucas horas depois de a guerrilha capturar o general Alzate e outras duas pessoas no dia 16, as partes tentaram sair desse impasse para retornar à mesa de negociação. Graças à mediação dos países fiadores, Cuba e Noruega, chegaram a um acordo, apenas três dias depois do sequestro, para a libertação dos reféns, condição exigida pelo governo do presidente Juan Manuel Santos para retomar as conversas. / EFE

 

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