''''Governo colombiano estava farto de Chávez''''

Estilo espalhafatoso e falta de avanço irritaram Bogotá, destacam analistas

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2007 | 00h00

A tentativa de Hugo Chávez de contactar um general colombiano foi só a desculpa ideal encontrada por Bogotá para acabar com a mediação do venezuelano nas negociações com as Farc. De acordo com analistas, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, estava incomodado havia muito tempo com o modo como o colega venezuelano vinha conduzindo as negociações, por uma série de motivos. "Uribe não imaginava que as negociações escapariam de seu controle, o que acabou ocorrendo por causa do estilo de Chávez, que não aceita limites nem protocolos", diz Alejo Vargas, cientista político da Universidade Nacional da Colômbia. "Além disso, o venezuelano não só foi incapaz de conseguir um avanço concreto nas negociações, como deu grande repercussão para esse tema na mídia, o que não interessa a Bogotá." Um dos incidentes que mais teriam irritado Uribe ocorreu na terça-feira, em Paris, num encontro de Chávez com o presidente francês, Nicolas Sarkozy. Com pouco a apresentar para o governo francês além de uma promessa das Farc de dar uma prova de vida da refém franco-colombiana Ingrid Betancourt, o líder venezuelano divulgou uma conversa confidencial com Uribe para mostrar avanços. Segundo Chávez, o presidente colombiano disse que aceitaria se encontrar com líderes da guerrilha se alguns reféns fossem libertados. "O incidente certamente irritou Bogotá porque quebrou um termo de confidencialidade, algo que não pode ocorrer numa negociação tão delicada", diz César Restrepo, pesquisador da Fundação Segurança e Democracia, em Bogotá. No mesmo dia, Uribe estipulou um prazo que acabava em 31 de dezembro para Chávez apresentar algum resultado - como a libertação de reféns. O telefonema para o general do Exército não foi a primeira vez que Chávez burlou os canais regulares de diálogo com Bogotá, segundo fontes do governo colombiano citadas pelo jornal El Tiempo. Ao tomar conhecimento de que o presidente venezuelano havia tentado contactar outras autoridades do país, Uribe teria concluído que ele estava desenvolvendo uma agenda "paralela e oculta". "Uribe resolveu envolver Chávez em um assunto interno na Colômbia porque acreditava que o fato de o presidente venezuelano ter boas relações com as Farc ajudaria a abrir um canal de diálogo com a guerrilha", diz Vargas. "Agora ele corre o sério risco de que isso acabe num incidente diplomático com o país vizinho." Para Olga Lucia Gomez, diretora da Fundação País Livre, que presta assistência às famílias dos seqüestrados, são eles os que mais perdem com o fim da mediação de Chávez: "Os parentes dos reféns ainda tinham esperanças de que o presidente venezuelano conseguisse destravar negociações que estão paralisadas há muito tempo."

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