Governo converte eleição num plebiscito sobre o presidente

Partido governista aposta na popularidade de Chávez como estratégia para garantir vitória sobre oposição nas eleições para prefeito e governador

Renata Miranda, O Estadao de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 00h00

A batalha pela defesa da base chavista nas eleições regionais da Venezuela já começou e tem no presidente Hugo Chávez seu principal comandante. Para garantir a vitória de seus candidatos e proteger os Estados estratégicos para o governo, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) adotou como prioridade de campanha promover a imagem de Chávez, e não dos candidatos."O presidente continua sendo a figura política mais relevante do país e, ao nomear um representante para a votação local, imediatamente o índice de aprovação desse candidato sobe 18%", afirmou ao Estado o cientista político Oscar Reyes, da Universidade Católica Andrés Bello (UCAB), de Caracas. "Os candidatos do PSUV sozinhos não têm muito apoio e, por isso, precisam montar no foguete de Chávez para ter uma certa órbita eleitoral."Em uma cartilha lançada em junho para estabelecer a unidade da legenda, o PSUV define três linhas de trabalho: posicionar o partido como uma "nova força oficial", reforçar a "obra do governo em quase uma década de revolução", e colocar em prática uma "guerrilha midiática" para "enaltecer o orgulho de ser chavista". Além disso, o manual diz que os candidatos devem "forjar" suas imagens para estruturá-las de acordo com as ideologias do PSUV e afirma que a campanha tem de reforçar as idéias de Chávez para proteger sua "indiscutível" liderança. Os candidatos a prefeito e governador pelo partido governista não vêem problema nas novas normas. "Se lanço minha candidatura sozinho, tenho 3% de apoio. O que vou ganhar com isso?", perguntou o governador do Estado de Miranda e candidato à reeleição, Diosdado Cabello, ao jornal Últimas Notícias. "Estou em uma organização política com um líder. Os votos são do presidente." Segundo Cabello, o partido não tolera "campanhas personalistas"."Apesar desse tipo de estratégia não constituir um delito eleitoral, a prática é imoral porque Chávez não é candidato, e sim o presidente do país", disse Sadio Garavini di Turno, doutor em ciências políticas pela Universidade Central da Venezuela. "O que ocorre de fato é que o presidente transformou a votação em um grande plebiscito entre ele e a oposição." Para Reyes, essa tendência é prejudicial para a democracia. "Chávez acabou revertendo o foco da disputa para ele. As pessoas não estão votando para o governador ou o prefeito de sua preferência, estão votando contra ou a favor do presidente."Segundo analistas, há denúncias de que Chávez esteja utilizando dinheiro do Estado para fazer campanha para seus protegidos. "O presidente usa meios de comunicação do governo e recursos públicos para promover seus candidatos", afirmou o pesquisador Andres Cañizales, coordenador do programa de Comunicação Política da UCAB. "Ele está em campanha e tornou-se o protagonista da eleição." No entanto, Cañizales alerta que essa constante exposição pode prejudicar Chávez. "Tantas ameaças e aparições na imprensa podem provocar um desgaste da figura do presidente."O plano do PSUV de promover apenas Chávez também mostra uma debilidade do partido em encontrar novos líderes. "O PSUV tem um déficit de dirigentes e, além disso, se recusa a fazer aliança com outros partidos", afirmou Reyes.

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