Governo Cristina acusa oposição de explorar assassinato

Partido Operário, de onde era o militante morto, critica líder e diz que ela estimula a violência política na Argentina

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

A presidente argentina, Cristina Kirchner, acusou ontem os partidos da oposição de "usar irresponsavelmente" o assassinato do jovem Mariano Ferreyra, militante do trotskista Partido Operário (PO), para criticar seu governo. Ferreyra foi assassinado com um tiro à queima-roupa na tarde da quarta-feira, quando estava acompanhado de colegas, por supostos integrantes do sindicato dos ferroviários, que é aliado ao governo de Cristina.

O grupo tinha saído de um protesto contra a demissão de trabalhadores quando foi cercado. A entidade, que integra a Confederação-Geral do Trabalho (CGT), a maior central sindical do país, é famosa por sua truculência.

As acusações da presidente sobre o uso político da morte do jovem foram feitas pelo Twitter, meio de comunicação preferido da presidente.

O PO respondeu acusando Cristina de "encobrir o assassinato", enquanto outros partidos da oposição criticaram o governo por supostamente estimular a violência política na Argentina e amparar os grupos de choque do sindicalismo.

O líder do PO, Jorge Altamira, respondeu irritado à declaração da presidente: "Isso é uma coisa de canalhas. Queremos que a justiça seja feita. Mas eles (o governo) por acaso querem justiça?" O líder trotskista exigiu uma reunião urgente com Cristina. "Estas coisas não se resolvem pelo Twitter", declarou Altamira.

Pressionado, o líder do sindicato dos ferroviários, José Pedraza, disse ontem que tem a sensação de que "o governo precisa de um preso rápido". Pedraza afirmou que não possui pistas sobre o autor do assassinato. "Só espero que não peguem um inocente", disse.

Analistas afirmam que o governo precisa esclarecer o assassinato rapidamente, para evitar que a repercussão negativa do crime resulte em maior perda de popularidade e complique os planos de eleger Cristina ou o marido dela, Néstor Kirchner, nas eleições presidenciais de 2011.

Nos últimos meses, os Kirchners foram criticados por seus vínculos com sindicalistas considerados violentos, entre eles Hugo Moyano, secretário-geral da CGT. O militante é definido como a "tropa de choque" do casal presidencial, já que é capaz de mobilizar milhares de caminhoneiros para piquetes nas portas de empresas que não aderem à política econômica do governo.

Funeral. O enterro de Ferreyra, realizado na manhã de ontem no cemitério do município de Avellaneda, na Grande Buenos Aires, transformou-se em palanque para os partidos de esquerda exigirem justiça.

O ex-presidente Kirchner, considerado na Argentina o governante de facto, afirmou que "importantes novidades" sobre o crime serão divulgadas em breve. No final da tarde, a polícia realizou uma vistoria na sede do sindicato dos ferroviários, à procura de provas.

Na noite da quinta-feira, mais de 25 mil pessoas realizaram na Praça de Maio, diante do palácio presidencial, um protesto em repúdio pelo assassinato de Ferreyra e exigiram a prisão dos culpados.

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