James Hill/The New York Times
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Governo da Alemanha confirma que opositor de Putin foi envenenado com Novichok

Chanceler Angela Merkel diz que substância foi detectada em exames de Alexei Nalvani, que está internado em uma UTI em Berlim; aumenta pressão internacional por explicações de Moscou sobre tentativa de assassinato de dissidente

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2020 | 12h25
Atualizado 18 de setembro de 2020 | 13h53

BERLIM - O governo da Alemanha confirmou nesta quarta-feira, 2, que exames realizados no laboratório do Exército confirmaram que o líder da oposição russa, Alexei Navalni, foi envenenado com um agente químico tóxico da classe novichok. O dissidente está internado na UTI de um hospital em Berlim. Seu estado é grave, mas estável. Segundo os médicos, Navalni terá “um período longo de recuperação” pela frente. 

“Esta é uma informação desconcertante sobre uma tentativa de assassinato por envenenamento contra uma importante figura da oposição russa”, disse a chanceler alemã, Angela Merkel. “Alexei Navalni foi vítima de um ataque com um agente químico nervoso do grupo novichok. Este veneno pôde ser identificado de forma inequívoca nos testes.”

Merkel condenou o ataque e exigiu uma explicação urgente da Rússia sobre o envenenamento. O novichok faz parte de um grupo de agentes nervosos de caráter militar desenvolvido pela União Soviética nos últimos anos da Guerra Fria. Especialistas dizem que a substância só é fabricada na Rússia.

Um agente químico da mesma família foi usado para envenenar Serguei Skripal, um ex-espião russo, e sua filha Yulia, em um ataque em Salisbury, no Reino Unido, em 2018. Na ocasião, os britânicos imediatamente culparam o Kremlin. Hoje, o grau de indignação mundial foi semelhante.

Jean-Yves Le Drian, chanceler francês, chamou o governo russo de “irresponsável”. Dominic Raab, ministro britânico das Relações Exteriores, cobrou explicações do Kremlin. “Eles precisam dar uma resposta. Precisam dizer a verdade sobre o que aconteceu com Navalni.” Matt Hancock, ministro da Saúde do Reino Unido, ofereceu ajuda aos investigadores alemães.

Até a diplomacia americana, sempre mais comedida quando se trata de Putin, não deixou de condenar o ataque. Uma fonte ligada ao Departamento de Estado, que falou à agência Reuters, afirmou que o governo dos Estados Unidos não tem razões para duvidar dos exames feitos na Alemanha. 

Navalni foi transferido da Rússia para a Alemanha no dia 22, após ter desmaiado durante um voo da Sibéria para Moscou. O ativista se sentiu muito mal a bordo do avião após tomar um chá, antes da decolagem. Especialistas dizem que ele teria morrido se o piloto da Aeroflot não tivesse feito um pouso de emergência na cidade de Omsk, onde o dissidente foi hospitalizado. 

Na ocasião, de acordo com aliados de Navalni, os médicos pareciam dispostos a cooperar com sua transferência para o exterior, mas agentes de segurança invadiram o hospital e negaram permissão para que ele saísse. Somente após pressão internacional e expressões de preocupação de Merkel e do presidente francês, Emmanuel Macron, os russos autorizaram a transferência do opositor para a Alemanha. 

Navalni é um dos maiores críticos do presidente russo, Vladimir Putin, e é conhecido por seus vídeos no YouTube expondo corrupção e suborno por políticos, burocratas e oligarcas da Rússia. O opositor tem sido uma pedra no sapato do Kremlin há mais de uma década, expondo o que diz ser uma corrupção de alto nível e mobilizando multidões de jovens manifestantes. 

Durante as duas décadas em que está no poder, Putin nunca pronunciou publicamente o nome de Navalni, segundo transcrições de discursos e entrevistas no site do Kremlin. Certa vez, quando o líder russo disse o nome do dissidente, após ser provocado por um interlocutor americano, durante um evento privado em 2013, o caso virou manchete de primeira página dos jornais locais.

Uma das razões da irritação de Putin, segundo Dmitri Belousov, jornalista dissidente que trabalhou na TV estatal, é que os serviços de segurança, apesar de anos de busca, nunca conseguiram encontrar nenhum material comprometedor a respeito do opositor. “Eles realmente odeiam Navalni”, disse Belousov.

Desde que Navalni foi internado, o Kremlin vem rejeitando categoricamente qualquer sugestão de que Putin possa estar envolvido no envenenamento. Hoje, a Rússia exigiu que os alemães apresentem detalhes dos exames toxicológicos do opositor. / NYT, WP, AP e REUTERS

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