Luis Acosta/AFP
Luis Acosta/AFP

Governo da Colômbia e Farc assinam acordo de paz 

Após 52 anos de conflito, a solenidade coloca a Colômbia mais perto do esperado tratado, que irá a plebiscito no dia 2

Fernanda Simas, ENVIADA ESPECIAL / CARTAGENA, COLÔMBIA, O Estado de S. Paulo

26 de setembro de 2016 | 19h42

Após três tentativas de negociações com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), sob diferentes comandos – Belisario Betancur, César Gaviria e Andrés Pastrana –, o governo colombiano assinou nesta segurnda-feira, na cidade de Cartagena de Índias, o acordo de paz com a maior guerrilha da América Latina e iniciou uma nova página na história do país. 

Sob os olhares de chefes de Estado e de governo de diversos países, além do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, e o líder da guerrilha, Rodrigo Londoño, o “Timochenko”, apertaram as mãos e assinaram o documento que encerrou 52 anos de conflito.

Após a assinatura, Timochenko foi o primeiro a discursar e prometeu cumprir o acordo. “Renascemos para colocar em marcha uma nova era de reconciliação”, afirmou. “Em nome das Farc-EP, peço sinceramente perdão por toda a dor que possamos ter causado na luta.” 

No momento em que Timochenko terminou seu discurso, três caças sobrevoaram o evento, assustando as pessoas que tinham acabado de se sentar, após aplaudirem de pé o pedido de desculpas. O líder guerrilheiro brincou com o caso e encerrou agradecendo. “Bem-vinda essa segunda oportunidade sobre a guerra. Muito obrigado.”

Em seguida, Santos fez um discurso emocionado. “Como chefe de Estado, dou boas-vindas à democracia”, disse Santos. Segundo ele, apesar de não concordar com a maneira que a guerrilha pensa a política, fará de tudo para garantir o direito de expressão das Farc. “Colombianos acabou a terrível noite”, finalizou o presidente. 

Jornada. O dia em Cartagena foi marcado por cerimônias. Pela manhã, Santos esteve em um café da manhã com militares e agradeceu às Forças Armadas pelo serviço nos anos de conflito. “O que estamos assinando hoje é uma vitória de vocês. Muito obrigado”, disse Santos, que foi ministro da Defesa no governo de Álvaro Uribe (2002-2010).

A cerimônia desta segunda-feira ocorreu em um espaço aberto, perto do Museu Naval, centro histórico da cidade. Depois de pancadas de chuva, o público começou a chegar e preencheu as cadeiras brancas colocadas no local. Santos ressaltou que a presença da comunidade internacional era importante e mostrava o quão histórico é o momento.

Nesta segunda-feira, senador de oposição a Santos, Uribe criticou o evento. “Dói a presença da comunidade internacional hoje (ontem), há cinco dias do plebiscito”, afirmou Uribe ao Estado, referindo-se à votação sobre o acordo no domingo.

Com a nova posição das Farc, o Exército da Libertação Nacional (ELN) se torna o principal desafio do governo em termos de segurança. A guerrilha era considerada uma ameaça ao plebiscito em razão de atos violentos que poderia cometer – o grupo, porém, anunciou um cessar-fogo até a votação.

Brasília. O presidente brasileiro, Michel Temer, divulgou nota oficial para comentar a assinatura do acordo de paz. Temer decidiu não ir ao evento em Cartagena para cuidar de “agenda interna” e enviou o chanceler José Serra como seu representante. “O Brasil está com a Colômbia neste momento histórico”, disse Temer.

Após a cerimônia, Serra afirmou que o novo momento da Colômbia vai proporcionar a ampliação da cooperação entre os dois países em áreas comerciais. "É como disse o Churchill: esse é o fim do comeco", acrescentou o ministro sobre os novos desafios do governo colombiano para implementar os acordos. Serra disse ter ficado emocionado com a cerimônia e surpreso com as falas de Timochenko. Ele informou que deve iniciar conversações com a Colômbia para ver as maneiras de o Brasil ajudar no pós-conflito. / COLABOROU CARLA ARAÚJO, DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

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