Moises Castillo/AP
Moises Castillo/AP

Governo da Guatemala considera incêndio no Congresso um 'ato terrorista'; CIDH condena uso da força

Depois de colocarem fogo no Congresso, no sábado, manifestantes voltaram às ruas para pedir a renúncia de Alejandro Giammattei

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2020 | 18h38
Atualizado 23 de novembro de 2020 | 00h38

CIDADE DA GUATEMALA - Manifestantes voltaram neste domingo, 22, às ruas da Guatemala para protestar conta o presidente Alejandro Giammattei, que aprovou um orçamento com cortes em programas de saúde, educação e direitos humanos. A crise se agravou no sábado, quando o Congresso foi incendiado em atos que o governo classificou de “terroristas”. Já a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA), condenou o que chamou de “uso excessivo da força” pela polícia contra os opositores. 

Os manifestantes se concentraram hoje na Plaza de la Constitución, centro político da capital guatemalteca. Entre as queixas está uma rubrica do orçamento que reserva US$ 65 mil para refeições dos parlamentares – enquanto os fundos para tratar pacientes com covid-19 foram cortados. 

No sábado, os manifestantes colocaram fogo no prédio do Congresso e jogaram pedras na polícia. Muitos pediam a renúncia de Giammattei, um conservador eleito em 2019, mas que assumiu em janeiro. A Universidade de San Carlos, a única estatal do país, pediu uma paralisação nacional para hoje, embora não tenha recebido resposta de outras áreas ou do poderoso setor empresarial.

A CIDH escreveu no Twitter que condenava o uso excessivo da força pelas autoridades contra manifestantes, mas também pedia uma investigação sobre “os atos de vandalismo contra o Congresso, após os quais agentes do Estado suprimiram indiscriminadamente o protesto”. 

“Os governos devem respeitar as manifestações pacíficas, mas quando confrontados com a violência, eles devem identificar pessoas – manifestantes ou terceiros – que põem direitos sob risco ou infringem propriedade do Estado.”

O secretário-geral da OEA, Luis Almagro, afirmou hoje um comunicado que o governo e o Congresso devem “garantir a transparência, a prestação de contas e os mais elevados padrões no combate à corrupção, entendendo como prioritária a luta contra a desnutrição infantil”. “Reiteramos que existe o direito ao protesto, que deve ser absolutamente garantido, mas não existe o direito ao vandalismo”, ponderou.

Alegando cansaço e abuso, centenas de guatemaltecos queimaram no sábado a sede do Congresso, após a aprovação de um orçamento que não contempla aumentos na esfera social e prevê um forte endividamento público. “A Guatemala chora sangue, o povo já está farto, vivemos pisoteados por mais de 200 anos”, disse um manifestante que não se identificou.

Giammattei alegou na sexta-feira, ao defender esse orçamento, que seu governo pensou em “reduzir despesas operacionais e concentrar esses recursos para atender as prioridades do país”. “Além disso, reduzir o déficit fiscal e, como resultado, um menor endividamento”, alegou.

O vice-presidente do país, Guillermo Castillo, que anteriormente se distanciou de seu presidente e pediu sua renúncia, pediu ontem ao Ministério Público (MP) que investigue os escritórios queimados do Congresso, mas também a repressão policial.

“É urgente que o MP abra uma investigação séria sobre o ocorrido ontem (sábado). O vandalismo é claro e também o uso excessivo da força policial”, indicou. Na sexta-feira, Castillo ofereceu a Giammattei uma renúncia conjunta “pelo bem do país”. Se os dois governantes renunciarem, o Congresso terá de juramentar o chanceler Pedro Brolo.

O ministro do Interior Gendri Reyes criticou em um discurso na noite de sábado os atos violentos no Congresso e disse que vão capturar os responsáveis pelo fogo no Congresso.

‘Chega de corrupção'

Erguendo bandeiras azul e branco do país e cartazes que diziam “Chega de corrupção”, “Fora Giammattei” e “Se meteram com a geração errada”, os manifestantes encheram a praça central em frente ao antigo palácio do governo.

O país, onde há vários casos e denúncias de corrupção assim como demoras na designação de juízes, já vivenciou em 2015 a renúncia do então presidente Otto Pérez em meio a um caso de fraude alfandegária. 

Além da rejeição ao novo orçamento, a indignação também diz respeito à opacidade na gestão dos recursos utilizados para enfrentar a pandemia de coronavírus, assim como a rejeição à criação de um superministério liderado por um jovem próximo ao presidente.

O Congresso aprovou empréstimos de mais de US$ 3,8 bilhões para atender a pandemia de coronavírus, mas apenas 15% desses recursos chegou aos guatemaltecos.

A gestão da crise de saúde por parte de Giammattei, um médico de 64 anos, tem sido duramente criticada por seu vice-presidente, pela oposição e setores sociais que denunciam carências nos hospitais e dificuldades para atender os grupos afetados pelo confinamento.

Segundo dados oficiais, a covid-19 deixou quase 120 mil casos e mais de 4 mil mortos neste país de 17 milhões de habitantes./AFP e AP 

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