AP Photo/Alfredo Zuniga
AP Photo/Alfredo Zuniga

Governo da Nicarágua expulsa missão de Direitos Humanos da ONU

Decisão de Daniel Ortega ocorre dois dias depois da publicação de relatório sobre os abusos cometidos pelo regime contra manifestantes que pedem a saída do presidente; ONG diz que decisão é tentativa de evitar que caso do país seja discutido pelo CS da ONU

O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 16h38

MANÁGUA - O governo da Nicarágua expulsou nesta sexta-feira, 31, a missão do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, dois dias depois da publicação de um contundente relatório sobre os abusos cometidos pelo regime contra manifestantes.

O governo do presidente Daniel Ortega ordenou que a missão liderada por Guillermo Fernández Maldonado deixe o país ainda nesta sexta, denunciou o Centro Nicaraguense de Direitos Humanos (CENIDH).

 

"Esta insólita decisão inoportuna reflete o ânimo de uma pessoa que se sente completamente perdida, que já não pode ocultar suas responsabilidades e seguir ocultando a verdade", declarou a presidente do CHENIDH, Vilma Núñez, referindo-se a Ortega.

A presidente do CENIDH ressaltou que com a expulsão da missão, Ortega procura evitar que o caso da Nicarágua seja tocado no dia 5 de setembro próximo no Conselho de Segurança da ONU, e ao mesmo tempo adverte de "mais repressão contra os nicaraguenses". 

A missão, liderada pelo peruano Guillermo Fernández Maldonado, já tinha denunciado "obstáculos" do governo para realizar seu trabalho na Nicarágua. Não foi possível localizar os membros da missão da ONU para verificar a informação.

Na véspera, o Alto Comissário para os Direitos Humanos da ONU pediu à comunidade internacional que adote medidas para frear a crise na Nicarágua, que vive um "clima de medo" após meses de violenta repressão às manifestações da oposição. 

"A repressão e as represálias contra os manifestantes prosseguem na Nicarágua, enquanto o mundo olha para o outro lado", afirmou o responsável pelo órgão, Zeid Ra'ad Al-Hussein, em um comunicado divulgado por ocasião da publicação do relatório. 

"A violência e a impunidade dos últimos quatro meses demonstraram a fragilidade das instituições do país e do Estado de direito, o que gerou um contexto de medo e desconfiança", completou.

O presidente nicaraguense rejeitou o relatório "por considerá-lo subjetivo, desleixado, com prejulgamentos e notoriamente parcial, redigido sob a influência de setores vinculados à oposição, e ausente do devido cuidado na sua redação de maneira objetiva".

As manifestações da oposição na Nicarágua, governada desde 2006 pelo ex-guerrilheiro sandinista Daniel Ortega, começaram em abril contra uma reforma da previdência - mais tarde abandonada. Os protestos foram ampliadas a todo o país como uma reação à violenta repressão, que deixou mais de 300 mortos - incluindo a brasileira Raynéia Gabrielle Lima - e 2.000 feridos. 

Entre as violações dos direitos humanos documentadas em um relatório do Alto Comissariado estão o "uso desproporcional da força por parte da polícia, que em alguns casos terminaram em execuções extrajudiciais, os desaparecimentos forçados, as prisões arbitrárias e generalizadas, as torturas e os maus-tratos".

No sábado, milhares de opositores marcharam em diferentes cidades da Nicarágua, exigindo liberdade de presos políticos e a saída do presidente Ortega. Simpatizantes do governo se também se mobilizaram em apoio ao mandatário.

Em Granada, no sul, um dos principais pontos de encontro, centenas de moradores contrários ao governo marcharam pelas ruas apesar de um forte dispositivo policial e da presença da tropa de choque.

Dirigentes da opositora Coalizão Universitária asseguraram que 20 de seus integrantes foram detidos pela polícia e levados à prisão de Jinotepe, quando se dirigiam para Granada. Com eles estava a documentarista documentarista brasileira Emilia Mello, que foi deportada do país no fim de semana. / AFP e EFE

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