Governo da Venezuela adia posse de Chávez

Vice-presidente confirma que líder bolivariano não irá à cerimônia prevista para amanhã

ROBERTO LAMEIRINHAS , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2013 | 02h07

O governo venezuelano anunciou ontem que o presidente Hugo Chávez não comparecerá à posse prevista pela Constituição para amanhã e pediu à Assembleia Nacional que permita o adiamento da cerimônia, que seria feita diante do Tribunal Supremo de Justiça. A informação foi transmitida numa carta enviada pelo vice-presidente Nicolás Maduro ao presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello.

Na mensagem, Maduro afirma que Chávez agradeceu aos deputados pela autorização emitida em dezembro para que ele se submetesse à cirurgia em Cuba e lamentou que, "por motivo de força maior", não poderá comparecer à cerimônia de posse.

A carta lida por Cabello faz menção aos dois argumentos levantados pelos chavistas que permitiriam a continuidade do presidente em suas funções apesar da ausência na posse: a licença de 90 dias concedida pelo Legislativo e a "razão de força maior" que permitiria - na visão de seus partidários - a Chávez fazer o juramento ante o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), em data não estabelecida.

Para alguns analistas venezuelanos, a carta enviada por Maduro se trataria de um passo formal para acionar a Sala Constitucional do TSJ, encarregada de dirimir dúvidas sobre a Carta. O órgão máximo do Judiciário venezuelano é controlado pelo chavismo e não será surpresa se a câmara der aval à interpretação que favorece o atual governo.

Comunicado prolixo. Detalhes do real estado de saúde de Chávez, operado no dia 11 de dezembro pela quarta vez como parte do tratamento de um câncer na região pélvica, continuam desconhecidos. Por meio de um curto comunicado, aparentemente redigido com a finalidade de atenuar seu conteúdo, o ministro de Comunicação da Venezuela, Ernesto Villegas, informou na segunda-feira à noite que Chávez ainda apresenta quadro de infecção respiratória. Num sinal mais positivo, Villegas anunciou também que o líder tem reagido ao tratamento em Cuba.

"O presidente se encontra em uma situação estacionária em relação à descrita no boletim médico mais recente (de quinta-feira), quando foi informada a insuficiência respiratória enfrentada pelo comandante Chávez como consequência de uma infecção pulmonar sobrevinda no curso do pós-operatório", disse Villegas. "O tratamento vem sendo aplicado de forma permanente e rigorosa, e o paciente o está assimilando", acrescentou o ministro, afirmando que o Executivo venezuelano tem mantido constante contato com a equipe médica que trata de Chávez, em Havana, e com parentes do presidente. Em cadeia nacional de rádio e TV, Villegas também pediu à população que não dê ouvidos aos rumores motivados pela "guerra psicológica" que a oposição estaria promovendo contra Chávez.

O uso do termo "estacionário" - em lugar de "estável" e "estabilizado" usados de forma mais comum nos comunicados anteriores - causou estranheza para alguns jornalistas e diplomatas que vivem em Caracas.

"Não acredito nas teorias conspiratórias que circulam nas redes sociais nas últimas semanas", disse ao Estado um diplomata sul-americano sob condição de anonimato. "Mas esse foi um boletim, pelo menos, diferente." "A ausência de informações confiáveis nos leva de volta aos tempos dos 'kremlinistas' dos anos 70, quando se procuravam sinais e linguagens cifradas que pudessem dar pistas sobre o estado de saúde de líderes políticos", escreveu sobre o tema o jornalista Ewald Scharfenberg.

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